domingo, julho 12, 2026

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Ter pano para mangas

   


 Ter pano para mangas

ou quando um ministro da educação corre atrás do prejuízo porque o sistema o obriga a isso.

Literalmente a expressão “ter pano para mangas” significa haver tecido suficiente para continuar o trabalho de costura ou alfaiataria. Figuradamente, tende a ser interpretado como haver assunto que se prolonga, se complica, se desdobra.
Há uma explicação popular, mas frágil, que tenta ligar a expressão aos séculos XVI–XVIII, quando as mangas das roupas eram longas e luxuosas, mas aquelas eram feitas separadamente e até compradas já prontas.
A origem mais consistente é artesanal, ligada ao século XIX.
Independentemente da sua origem, de forma mais ou menos recorrente a questão dos exames nacionais regressa à ribalta e dia após dia, desmentido após desmentido, aqui temos pano para mangas.  E como não falta a criatividade, agora até surge uma nova dimensão: a possibilidade de indemnização às famílias!
Fica por demais evidente a conceção de um sistema de ensino que tem no exame nacional o seu paradigma! Fraco padrão.
É fraco porque reduz o ensino a uma métrica.
É fraco porque não avalia competências.
É fraco porque cria dependência estrutural.
Desligar os objetivos do ensino secundário do imperativo que é a nota de acesso ao ensino superior impõe-se e é urgente. O momento é de mudanças e as roturas são o tempo certo para decisões ousadas. Esta posição não é pacífica, mas não há razões fortes que a contradigam. 
Carl Rogers assumia não ser desejável que um curso terminasse num exame baseado em livros mais ou menos ditados por um professor que desempenha o papel que lhe é atribuído por costume e tradição e que alguns teimam em perpetuar.
Também é verdade que alguns alunos e outros na comunidade educativa, desejam que os professores lhes proporcionem um pedaço de mercadoria intelectual tratada, de modo a ser memorizada e a ser devolvida em exame. É uma opção legítima.
O simples reconhecimento de factos tem o seu valor, é verdade, mas é pouco, muito pouco! As aprendizagens têm de promover mudanças, alterações significativas. O papel do professor é proporcionar os meios aos seus alunos de modo que possam resolver problemas.
Mochofino está de férias, mas não resistiu. Pousado no seu galho habitual e ao ver a confusão instalada, lembra uma exortação antiga — não sejam um vagão de munições; sejam uma espingarda.
A imagem não nasce da exortação, mas do professor de história que Rogers cita — um homem moldado pela Primeira Guerra Mundial, para quem os factos eram munições e o conhecimento só valia quando disparado.  
Pois bem, enquanto não se romper este paradigma, haverá sempre pano para mangas.
Universo original de Mochofino.

segunda-feira, julho 06, 2026

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Quem espera sempre alcança

    

Quem espera sempre alcança.

Mas há dias em que a atitude das pessoas parece provar o contrário: preferem lavar as mãos como Pilatos, fugir e evitar o que lhes toca. Em vez de enfrentarem os problemas e se responsabilizarem, agem como se nada tivesse a ver com elas e afastam‑se.

Pouco lhes importa o que pode acontecer aos outros; não poucas vezes apelam a um lado mais cristão e incitam os demais a fazer bem, sem olhar a quem, como se a bondade fosse um gesto automático, desligado da responsabilidade de olhar verdadeiramente o outro.

Por vezes cometem verdadeiras loucuras — mas todos sabemos que loucuras não remedeiam loucuras, e que a pressa de decidir raramente conduz aos melhores resultados, pois depressa e bem, não há quem. À mesa do café, ah… aí são todos sábios. Cada um com a sua verdade, porque cada cabeça sua sentença.

Defendem ideias apenas porque sim, ou porque gostam de servir, ainda que, muito frequentemente, quanto mais se serve, menos se vale.

Há também quem esconda as suas verdadeiras intenções: mostram o pão, mas escondem a pedra. E se, por alguma razão, lhes é dada a oportunidade de terem algum poder — mesmo que seja pouco ou por pouco tempo — rapidamente o carácter se revela, e o provérbio ganha credibilidade: Põe-lhe uma vara na mão e conhecerás o vilão.

Outros limitam‑se a seguir sem pensar, porque ovelhas bobas, para onde vai uma vão todas. E há os que fogem quando o momento aperta, porque adeusinho é sempre mais docinho. E os que só percebem a gravidade das coisas quando o trabalho difícil chega e a porca finalmente torce o rabo.

Mas não podemos esquecer os que, em desespero, fazem o que for preciso para manter o lugar — não hesitam, pois tal como o diabo, quando se viu desesperado, meteu‑se moleiro. Também os que explodem por tudo e por nada aqui merecem uma palavra, porque ferver em pouca água é a forma mais rápida de parecer forte.

No fim, tudo isto revela o que sempre soubemos: a condição humana é frágil e contraditória, capaz de gestos nobres e de fugas vergonhosas. Mochofino sabe que os provérbios sobrevivem porque mostram caminhos, desvios e possibilidades de escolha. E, com postura, com silêncio ou com um leve bater de asas, lembra‑nos que a escolha, mesmo pequena, é sempre nossa.

Universo original de Mochofino.


Autor - José Pina

Autor - José Pina
Universo original de Mochofino