Mas
há dias em que a atitude das pessoas parece provar o contrário: preferem lavar
as mãos como Pilatos, fugir e evitar o que lhes toca. Em vez de enfrentarem
os problemas e se responsabilizarem, agem como se nada tivesse a ver com elas e
afastam‑se.
Pouco
lhes importa o que pode acontecer aos outros; não poucas vezes apelam a um lado mais
cristão e incitam os
demais a fazer bem, sem olhar a quem, como se a bondade fosse um gesto
automático, desligado
da responsabilidade de olhar verdadeiramente o outro.
Por
vezes cometem verdadeiras loucuras — mas todos sabemos que loucuras não
remedeiam loucuras, e que a pressa de decidir raramente conduz aos melhores
resultados, pois depressa e bem, não há quem. À mesa do café, ah… aí são
todos sábios. Cada um com a sua verdade, porque cada cabeça sua sentença.
Defendem
ideias apenas porque sim, ou porque gostam de servir, ainda que, muito
frequentemente, quanto mais se serve, menos se vale.
Há
também quem esconda as suas verdadeiras intenções: mostram o pão, mas
escondem a pedra. E se, por alguma razão, lhes é dada a oportunidade de
terem algum poder — mesmo que seja pouco ou por pouco tempo — rapidamente o
carácter se revela, e o provérbio ganha credibilidade: Põe-lhe uma vara na
mão e conhecerás o vilão.
Outros
limitam‑se a seguir sem pensar, porque ovelhas bobas, para onde vai uma vão
todas. E há os que fogem quando o momento aperta, porque adeusinho é
sempre mais docinho. E os que só percebem a gravidade das coisas quando o
trabalho difícil chega e a porca finalmente torce o rabo.
Mas
não podemos esquecer os que, em desespero, fazem o que for preciso para manter
o lugar — não hesitam, pois tal como o diabo, quando se viu
desesperado, meteu‑se moleiro. Também os que explodem por tudo e por nada
aqui merecem uma palavra, porque ferver em pouca água é a forma mais
rápida de parecer forte.
No fim, tudo isto revela o que sempre soubemos: a condição humana é frágil e contraditória, capaz de gestos nobres e de fugas vergonhosas. Mochofino sabe que os provérbios sobrevivem porque mostram caminhos, desvios e possibilidades de escolha. E, com postura, com silêncio ou com um leve bater de asas, lembra‑nos que a escolha, mesmo pequena, é sempre nossa.
Universo original de Mochofino.
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