sábado, janeiro 24, 2026

thumbnail

Luar de janeiro alumia todo o ribeiro

   

À semelhança de outros provérbios, podemos encontrar algumas variantes que ajudam a reforçar a interpretação que vamos fazer: 
“Luar de janeiro não tem parceiro”
“Não há luar como o de janeiro”
“Ao luar de janeiro, conta-se dinheiro”
Estamos perante uma expressão que coloca lado a lado, de forma simples, acontecimentos naturais e humanos, singulares.
No mundo rural, iluminar um ribeiro significava ver caminhos, atravessar cursos de água, vigiar margens e animais. A expressão popular diz-nos de forma clara que o luar era bem-vindo para ajudar em tarefas que continuavam depois do sol-posto onde era necessário acomodar e proteger o gado.
Há uns séculos, um luar límpido não deixava de ser ajuda preciosa.
Normalmente o mês de janeiro é frio, as noites são longas e num céu limpo, uma noite de lua cheia será necessariamente deslumbrante. Mas a que se deverá esta singularidade?
Mochofino procura respostas e com alguma rapidez afasta o que não serve: a inclinação da Terra explica o frio, sim, mas não explica a claridade do luar.
Num ramo do carvalho observa com atenção o céu de janeiro e a luz que a água da barragem da Capinha também reflete.
O ar está frio, limpo e quase sem humidade… há pouca turbulência… e a Lua cheia, alta, muito alta, marca a sua presença.
“É isso”, conclui. “A luz solar refletida pela Lua percorre um trajeto ótico menor e, assim, não sofre tanta dispersão.”
Uma vez mais, a ciência ajudou-nos a compreender a causa — e a tradição recordou-nos a experiência dos que vieram antes de nós.

Universo original de Mochofino

sábado, janeiro 17, 2026

thumbnail

Janeiro quente traz o diabo no ventre

   

Utilizando uma linguagem figurativa, pois diabo não é para ser tomado à letra, este dito popular tem raízes muito ibéricas pois encontramos a sua expressão literal em castelhano:”Enero caliente, el diablo trae en el vientre” e com o mesmo sentido em galego e catalão, mas sem a introdução do vocábulo diabo!

Facilmente aceitamos que um mês de janeiro quente não é natural pois este é um mês tradicionalmente frio.

Um mês de janeiro com temperaturas elevadas não condiz com o modelo que foi construído com base na experiência acumulada ao longo de séculos. Na leitura agrícola tradicional, o “diabo” podem ser pragas antecipadas, períodos de seca mais prolongados, más colheitas, desequilíbrio das estações…

O “diabo” do provérbio não é castigo divino, nem figura religiosa, representa apenas uma consequência não desejável, algo que viria e poria à prova quem trabalhava os campos.

Ao trabalhar este provérbio não resistimos a perguntar:

Um janeiro quente será uma evidência das alterações climáticas que hoje já experienciamos?

Um janeiro quente será um sintoma do efeito de estufa intensificado pelo excesso de dióxido de carbono existente na atmosfera?

Um janeiro quente descreve, com linguagem simbólica, aquilo que a climatologia descreve com dados?

Um janeiro quente será o sinal visível de um sistema climático que já carrega “o diabo no ventre”: ciclos desregulados e impactos que emergem mais tarde?

Nota: 

O dióxido de carbono é um dos principais gases responsáveis por reter parte da radiação infravermelha emitida pela superfície terrestre, impedindo que todo o calor escape para o espaço. Deste modo, mantém uma temperatura adequada ao desenvolvimento de vida. Sem dióxido de carbono (CO₂) a temperatura média da Terra seria aproximadamente de – 18 ºC. A Terra seria gelada, inabitável. 

O problema não é a existência de dióxido de carbono, é o seu excesso pois intensifica o efeito de estufa → aumenta a temperatura média → altera padrões climáticos → produz impactos que só se revelam anos mais tarde.

 Universo original de Mochofino

sábado, janeiro 10, 2026

thumbnail

Devagar se vai ao longe

   

Este provérbio não é sobre lentidão; é sobre ritmo certo, estratégia e humildade.

Devagar se vai ao longe é um ditado que nos recorda o quanto é importante a paciência e a força de vontade para ir mais além, para atingir o que nos propomos realizar.

Avançar pode ser lento, mas o final será consistente. A palavra-chave é devagar, mas o sentido profundo é sobre constância e modéstia. O provérbio tem mais a ver com o processo e não com a rapidez.

Quando o caminho é longo, exige-se esforço e ritmo sustentável.

Quando nos cruzamos com este provérbio somos quase instantaneamente transportados para a fábula, A Lebre e a Tartaruga, atribuída a Esopo, posteriormente recontada por La Fontaine, e recordamos que a tartaruga vence a corrida contra a lebre.

É um provérbio que protege do excesso, do impulso, e que adverte para o facto da rapidez poder interferir de forma negativa no resultado pretendido.

O autoconvencimento do quanto somos bons pode traduzir-se em facilitismo e ausência de empenho no trabalho que queremos realizar. A corrida entre a tartaruga e a lebre é uma lição, não é um espetáculo de presunção. 

Assim, pareceu-nos fazer sentido apresentar este dito popular, pois o início de um novo ano traz sempre aquele acréscimo de adrenalina, aquela tentação de acelerar, mas lembrem-se que este é um provérbio que apela a um ritmo consistente, sem pressas.

Renovo os Votos de Bom Ano Novo.

 Universo original de Mochofino

sábado, janeiro 03, 2026

thumbnail

Águas passadas não movem moinhos

   

A interpretação aceite para este provérbio passa por concordar que acontecimentos passados não mudam a realidade presente e, como tal, devemos olhar para o futuro. 
Quanto à importância de olhar para o futuro estamos plenamente de acordo, mas será que a água que já passou não pode novamente mover os moinhos?
A interpretação mais comum para este provérbio é suportada numa analogia hidráulica, uma vez que os moinhos de água baseiam o seu funcionamento na passagem da corrente que faz girar uma roda e, assim, permite o funcionamento do mecanismo necessário para moer.

No entanto, aceitar esta interpretação pode legitimar a desvalorização da memória, o que equivale a sustentar a ideia de que o passado não pode ser suporte para agir no presente e pode servir de desculpa para não prestar contas e acabar ou impedir a reflexão. 

Se algo pode caracterizar a sabedoria popular, é não ser ingénua!
Ninguém ignora que as correntes de água se interligam e que os erros cometidos a montante serão pagos a jusante.
Mais, a analogia hidráulica caba por falhar, na justa medida em que também ignora o ciclo da água. Por isso Mochofino evidencia alguma inquietação e exprime a sua preocupação: O perigo não é a água passar, é pensar que não volta.

A perda da capacidade humana de pensar, de refletir, tende a levar à amnésia e um sistema que finge que a água não volta e não se prepara para a enchente que tenderá a ocorrer.
Água passada não move aquele moinho, mas permite que os próximos funcionem. A interpretação do provérbio, tomada à letra, falha tanto na Física como na sabedoria: esquece que a água volta sempre.
Assim, não fará todo o sentido pensar que o perigo é fingir que ela não volta? 

Nota: Segundo dados divulgados pela UNESCO, 72% da população mundial vive atualmente sob regimes não democráticos, o valor mais alto desde 1978, acompanhado por um recuo global da liberdade de expressão de cerca de 10% desde 2012. Este dado não fala apenas de censura formal; fala de algo mais profundo: a erosão da liberdade para pensar.

 Universo original de Mochofino

Autor - José Pina

Autor - José Pina
Universo original de Mochofino