Utilizando uma linguagem figurativa, pois diabo não é para ser tomado à letra, este dito popular tem raízes muito ibéricas pois encontramos a sua expressão literal em castelhano:”Enero caliente, el diablo trae en el vientre” e com o mesmo sentido em galego e catalão, mas sem a introdução do vocábulo diabo!
Facilmente aceitamos que um mês de janeiro quente não é natural pois este é um mês tradicionalmente frio.
Um mês de janeiro com temperaturas elevadas não condiz com o modelo que foi construído com base na experiência acumulada ao longo de séculos. Na leitura agrícola tradicional, o “diabo” podem ser pragas antecipadas, períodos de seca mais prolongados, más colheitas, desequilíbrio das estações…
O “diabo” do provérbio não é castigo divino, nem figura religiosa, representa apenas uma consequência não desejável, algo que viria e poria à prova quem trabalhava os campos.
Ao trabalhar este provérbio não resistimos a perguntar:
Um janeiro quente será uma evidência das alterações climáticas que hoje já experienciamos?
Um janeiro quente será um sintoma do efeito de estufa intensificado pelo excesso de dióxido de carbono existente na atmosfera?
Um janeiro quente descreve, com linguagem simbólica, aquilo que a climatologia descreve com dados?
Um janeiro quente será o sinal visível de um sistema climático que já carrega “o diabo no ventre”: ciclos desregulados e impactos que emergem mais tarde?
Nota:
O dióxido de carbono é um dos principais gases responsáveis por reter parte da radiação infravermelha emitida pela superfície terrestre, impedindo que todo o calor escape para o espaço. Deste modo, mantém uma temperatura adequada ao desenvolvimento de vida. Sem dióxido de carbono (CO₂) a temperatura média da Terra seria aproximadamente de – 18 ºC. A Terra seria gelada, inabitável.
O problema não é a existência de dióxido de carbono, é o seu excesso pois intensifica o efeito de estufa → aumenta a temperatura média → altera padrões climáticos → produz impactos que só se revelam anos mais tarde.
Universo original de Mochofino
Este provérbio não é sobre lentidão; é sobre ritmo certo, estratégia e humildade.
Devagar se vai ao longe é um ditado que nos recorda o quanto é importante a paciência e a força de vontade para ir mais além, para atingir o que nos propomos realizar.
Avançar pode ser lento, mas o final será consistente. A palavra-chave é devagar, mas o sentido profundo é sobre constância e modéstia. O provérbio tem mais a ver com o processo e não com a rapidez.
Quando o caminho é longo, exige-se esforço e ritmo sustentável.
Quando nos cruzamos com este provérbio somos quase instantaneamente transportados para a fábula, A Lebre e a Tartaruga, atribuída a Esopo, posteriormente recontada por La Fontaine, e recordamos que a tartaruga vence a corrida contra a lebre.
É um provérbio que protege do excesso, do impulso, e que adverte para o facto da rapidez poder interferir de forma negativa no resultado pretendido.
O autoconvencimento do quanto somos bons pode traduzir-se em facilitismo e ausência de empenho no trabalho que queremos realizar. A corrida entre a tartaruga e a lebre é uma lição, não é um espetáculo de presunção.
Assim, pareceu-nos fazer sentido apresentar este dito popular, pois o início de um novo ano traz sempre aquele acréscimo de adrenalina, aquela tentação de acelerar, mas lembrem-se que este é um provérbio que apela a um ritmo consistente, sem pressas.
Renovo os Votos de Bom Ano Novo.
Universo original de Mochofino
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