sábado, janeiro 03, 2026

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Águas passadas não movem moinhos

   

A interpretação aceite para este provérbio passa por concordar que acontecimentos passados não mudam a realidade presente e, como tal, devemos olhar para o futuro. 
Quanto à importância de olhar para o futuro estamos plenamente de acordo, mas será que a água que já passou não pode novamente mover os moinhos?
A interpretação mais comum para este provérbio é suportada numa analogia hidráulica, uma vez que os moinhos de água baseiam o seu funcionamento na passagem da corrente que faz girar uma roda e, assim, permite o funcionamento do mecanismo necessário para moer.

No entanto, aceitar esta interpretação pode legitimar a desvalorização da memória, o que equivale a sustentar a ideia de que o passado não pode ser suporte para agir no presente e pode servir de desculpa para não prestar contas e acabar ou impedir a reflexão. 

Se algo pode caracterizar a sabedoria popular, é não ser ingénua!
Ninguém ignora que as correntes de água se interligam e que os erros cometidos a montante serão pagos a jusante.
Mais, a analogia hidráulica caba por falhar, na justa medida em que também ignora o ciclo da água. Por isso Mochofino evidencia alguma inquietação e exprime a sua preocupação: O perigo não é a água passar, é pensar que não volta.

A perda da capacidade humana de pensar, de refletir, tende a levar à amnésia e um sistema que finge que a água não volta e não se prepara para a enchente que tenderá a ocorrer.
Água passada não move aquele moinho, mas permite que os próximos funcionem. A interpretação do provérbio, tomada à letra, falha tanto na Física como na sabedoria: esquece que a água volta sempre.
Assim, não fará todo o sentido pensar que o perigo é fingir que ela não volta? 

Nota: Segundo dados divulgados pela UNESCO, 72% da população mundial vive atualmente sob regimes não democráticos, o valor mais alto desde 1978, acompanhado por um recuo global da liberdade de expressão de cerca de 10% desde 2012. Este dado não fala apenas de censura formal; fala de algo mais profundo: a erosão da liberdade para pensar.

 Universo original de Mochofino

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Autor - José Pina

Autor - José Pina
Universo original de Mochofino