segunda-feira, outubro 26, 2026

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Alecrim, alecrim aos molhos...

 
O alecrim e a manjerona eram frequentemente associados ao amor, ao namoro e aos festejos populares. Não é de estranhar, pois, que o alecrim estivesse presente nos cantares populares com origens tradicionais portuguesas e muitos reconhecerão os versos:
Alecrim, alecrim aos molhos
por causa de ti
choram os meus olhos
ai meu amor…
Menos conhecidos serão, talvez, os versos:
O rouxinol quando canta
 Bota o pé no alecrim;
 Os olhos à manjerona,
 Dá combate ao jardim…
que encontramos no “Cancioneiro Popular”, coligido por Teóphilo Braga, onde as flores, algumas vezes, surgem como metáforas de raparigas.

Das cantigas populares para a observação da natureza vai um pequeno passo. Nesta época do ano, uma visita ao parque verde da cidade proporciona um contacto direto com esta planta e convida-nos a apreciá-la. Foi o que fiz e, mais tarde, tentei reproduzir em aguarela um pequeno ramo.

Para além da sua presença na cultura popular, o alecrim é valorizado há séculos pelas suas múltiplas utilizações que vão muito além das associações amorosas. Culinárias, medicinais, cosméticas… são apenas exemplos do seu uso desde a antiguidade.

Remédios caseiros eram vulgares e o óleo de alecrim é um exemplo dessa utilização, sendo apreciado pelas suas propriedades antioxidantes e aromáticas. Muitos recordarão a famosa garrafa de álcool de alecrim, a que os seus avós recorriam para massajar aquela dor incómoda nas pernas ou nos pés ou aquela nódoa negra que aparecia depois de uma pancada ou queda.

Mochofino diria que o alecrim é uma planta que merece estar em todas as casas, que mais não seja, pelo seu agradável aroma! 



 

sábado, outubro 17, 2026

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A Física do pôr do Sol – O segredo das cores - 2ª parte

   

Na 1.ª parte procurámos compreender a natureza da luz, uma das mais fascinantes aventuras da Física. Vimos que a luz é uma forma de energia que se propaga sob a forma de radiação eletromagnética e que pode manifestar simultaneamente propriedades ondulatórias e corpusculares.

Vamos agora tentar compreender como se formam os esplendorosos pores do Sol.

No interior do Sol ocorrem reações de fusão nuclear, convertendo hidrogénio em hélio e libertando enormes quantidades de energia sob a forma de radiação eletromagnética. Essa energia acaba por chegar à superfície solar e é emitida sob a forma de fotões, as partículas da luz, associados a diferentes frequências e comprimentos de onda.

De toda a radiação emitida pelo Sol, apenas uma pequena fração pertence à região visível do espectro eletromagnético, referimo-nos a ela como luz solar e é percecionada pelos nossos olhos como luz branca, resultante da combinação de todas as cores do espectro visível (cores do arco-íris). É esta luz que está na origem dos magníficos pores-do-Sol.

Quando a luz atravessa a atmosfera terrestre, as diferentes cores não são afetadas da mesma forma. As radiações de menor comprimento de onda, como o azul e o violeta, são mais fortemente dispersadas pelas moléculas dos gases presentes no ar, num fenómeno conhecido como dispersão de Rayleigh.

Quando o Sol está mais alto no céu, a luz percorre uma camada relativamente fina da atmosfera. As moléculas dos gases da atmosfera dispersam mais intensamente a luz azul do que a vermelha. Embora a luz violeta seja dispersada ainda mais intensamente do que a azul, os nossos olhos são menos sensíveis a essa cor. Por isso, o céu apresenta-se com aquela cor azul característica.

Ao pôr do sol, a luz tem de percorrer um trajeto mais longo através da atmosfera e grande parte da luz azul e violeta é dispersada para fora da linha de visão. Permanecem predominantemente os comprimentos de onda mais longos, correspondentes aos tons amarelos, laranja e vermelhos. 

Além da dispersão de Rayleigh, também entram em jogo partículas de maiores dimensões, como poeiras dos desertos, fumo de incêndios e gotículas de água. Estas partículas provocam a designada dispersão de Mie, contribuindo para intensificar os tons vermelhos e alaranjados.

Quando observamos um magnífico pôr do Sol, estamos a assistir ao resultado de vários fenómenos físicos que envolvem a natureza da luz e a composição da atmosfera. A beleza que contemplamos é, afinal, a Física em ação.

Universo original de Mochofino.- Ano II


sexta-feira, outubro 16, 2026

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A Física do pôr do Sol - A natureza da luz [1ª parte]

   

Quantos de nós não ficámos já maravilhados ao observar as vibrantes cores do por de Sol? Mas, quantos de nós procurámos saber qual a física que explica a enorme variedade de cores que podemos observar?

Vamos tentar responder, de forma simples e contextualizada.

Comecemos por perceber o que é a luz, qual a sua natureza.

Explicar o que é a luz e qual a sua natureza, é um problema que dividiu opiniões e gerou enormes discussões durante mais de dois milénios. No entanto, o debate científico concentra-se entre os séculos XVII e XX.

No século XVII surge uma grande controvérsia entre Newton, que defendia que a luz era constituída por pequenas partículas emitidas pelas fontes luminosas e Huygens que propunha que a luz era uma onda que se propagava através do hipotético “éter”.

A explicação avançada por Newton foi a mais aceite, muito devido ao enorme prestígio que recolhia entre a comunidade científica. Mas no início do século XIX a teoria ondulatória ganhou um forte apoio quando Young demonstrou experimentalmente que a luz sofria interferência ao atravessar duas fendas muito estreitas.

Se a luz fosse constituída apenas por partículas, esperar-se-iam duas bandas luminosas. No entanto, surgiu uma sucessão de faixas claras e escuras.

Algumas décadas mais tarde Maxwell demonstrou teoricamente que a luz corresponde a uma onda eletromagnética, a questão parecia resolvida: a luz era uma onda. 

No início do século XX surgem alguns fenómenos que a teoria ondulatória não consegue explicar. Planck introduz o conceito de quantum de energia e Einstein explica o efeito fotoelétrico admitindo que a energia está quantizada, desenvolvendo a ideia proposta por Planck. A luz revela assim uma componente corpuscular, descrita através dos fotões.

Nos anos 20, com o desenvolvimento da Mecânica Quântica por Heisenberg, Schrödinger e outros físicos, consolidou-se a ideia de que a luz manifesta propriedades ondulatórias e corpusculares. Com De Broglie surgiu a ideia de que esta dualidade não é exclusiva da luz: toda a matéria possui igualmente natureza dual. Esta dualidade onda-partícula constitui um dos pilares da Mecânica Quântica.

Universo original de Mochofino.- Ano II


quarta-feira, outubro 07, 2026

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Falar pelos cotovelos

 
Este provérbio levou-me a recuperar uma figura que já incluí nos primeiros posts de Mochofino: o "Papagaio Tagarela" - pois, muitas vezes, quem fala demais tenta compensar a falta de argumentos sólidos com o excesso de som e de gestos.

Habituado a ser surpreendido pela cultura e pela sabedoria popular, tentei perceber a sua origem e o porquê de uma ligação entre o ato de falar e os membros superiores, em particular os cotovelos.

Pelo que apurei, parece fazer sentido a presença dos cotovelos, pois “falar pelos cotovelos” diz‑se de uma pessoa muito faladora, acompanhando o discurso com gestos exuberantes dos braços.
A expressão popular ganha lógica, já que os cotovelos são parte determinante do gesto.

No entanto, promover os cotovelos a instrumento de fala só por ironia: os cotovelos não falam, nem são parte do corpo associada à produção de som.

Sarcasticamente seria interessante que o corpo tivesse um mecanismo de alerta que, à semelhança do que acontecia no Planeta dos Homens, naquela aula de história clássica protagonizada por Agildo Ribeiro, onde havia uma “múmia paralítica” que fazia soar uma campainha sempre que a aula evoluía para devaneios — e, em particular, quando se lembrava de Bruna Lombardi — atuasse quando os gestos se tornam descabidos.

Sim, porque um sinal de alerta não seria descabido: por vezes os gestos tornam‑se tão exagerados que ultrapassam a fronteira da privacidade de uma conversa, transformando‑se num espetáculo público.
Universo original de Mochofino.- Ano II




sábado, setembro 26, 2026

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A arrogância vem antes da perda

 
A palavra arrogância tem ganho algum destaque e, à semelhança de tantas outras, sofreu uma mudança semântica: da ideia de “exige para si” passou a “atribuir a si” qualidades excessivas, sem fundamento que as sustente.
Hoje, arrogância está associada à altivez, à prepotência e ao desprezo pelos outros.
Vem isto a propósito do provérbio A arrogância vem antes da queda — e seria fácil para Mochofino, quase tentador, ligá‑la às declarações com que os políticos se brindam entre si.
Não vamos por aí.

Esta formulação encontra paralelo em A soberba precede a ruína, 16:18, do Livro dos Provérbios, e é a partir dela que estabelecemos uma ligação entre um dispositivo físico — o copo de Pitágoras — e o rei da Frígia, Tântalo, filho de Zeus e de uma ninfa, Plota.
A relação entre o provérbio bíblico e o copo de Pitágoras evidencia de forma clara que o excesso conduz à perda. Muito mais interessante.

Tântalo era um mortal admitido à mesa dos deuses e arriscava roubar néctar e ambrosia, as duas substâncias de que se alimentavam os deuses, distribuindo‑as depois por outros mortais.
De forma arrogante, ultrapassou todos os limites quando ousou testar a divindade dos deuses, servindo‑lhes a carne do próprio filho que mandou matar e cozinhar.
Descoberto o hediondo crime, como castigo, Tântalo foi condenado a ficar de joelhos (ou em pé) dentro de água, sem poder saciar a sede, pois sempre que se aproximava da água esta escoava completamente.
Quanto ao copo de Pitágoras, o dispositivo é constituído por um vaso que tem no interior um tubo de vidro recurvado com saída no fundo. Deitando água no copo, quando o nível atinge o ponto mais alto da curvatura do tubo, esta escoa‑se para o exterior. Se a água for reposta, o processo repete‑se.
Com base no mito, também é hoje conhecido por vaso de Tântalo.
Universo original de Mochofino.- Ano II

domingo, setembro 20, 2026

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Pedro Hispano - Papa João XXI - 750 anos do seu pontificado

 
Portugal, em setembro de 2026, deveria dar ênfase a um português que foi médico, filósofo, teólogo, matemático, diplomata, intelectual distinto e papa – João XXI – ainda que não exista um João XX.
Conhecido como Pedro Hispano, nasceu em Lisboa [Pedro Julião Rebolo] e é considerado o único papa português.
O seu pontificado foi muito curto [setembro de 1276, a maio de 1277] e caraterizado pela simplicidade. 
João XXI empenhou-se em obter a paz entre as nações em conflito e na tentativa de união entre os cristãos do ocidente e do oriente.
Dante Alighieri, na sua obra maior, a “Divina Comédia”, colocou a sua alma no paraíso, identificando-o como aquele que brilha em doze livros, referência ao número de tratados que escreveu.
Entre as suas imensas obras destacamos “Thesaurus Pauperum” por ser considerada como precursora da medicina preventiva. Nela propõe hábitos e dietas que promovem a conservação da saúde. Foi traduzida para várias línguas e publicada numa centena de edições.
Referenciamos, também, “De Oculi” um tratado de oftalmologia descoberto no séc. XIX com ampla difusão em universidades europeias.
Miguel Ângelo, o grande pintor renascentista, que sofria gravemente de conjuntivite, encontrou alívio num colírio denominado “aquae mirabilis”, receita de Pedro Hispano. Na Biblioteca do Vaticano, existe uma cópia manuscrita com receitas extraídas dessa obra. 
Um homem muito à frente no seu tempo.
Universo original de Mochofino.- Ano II

quarta-feira, setembro 16, 2026

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Bom ozono, mau ozono e Protocolo de Montreal

 

O ozono é um gás cujas moléculas são constituídas por três átomos de elemento oxigénio.

O papel do ozono depende exclusivamente do contexto atmosférico em que se encontra. Por isso, a classificação de “bom” ou “mau” não descreve a molécula, mas sim a função que desempenha. Então, porque surge esta distinção?

A camada de ozono, localizada na atmosfera e em concreto na estratosfera, entre os 20 e os 35 km de altitude, filtra uma parte da radiação ultravioleta [UV-B e UV-C] que atinge a Terra e, deste modo, atua como camada protetora da vida deste nosso planeta azul. Esta camada tem origem na reação química que ocorre entre o oxigénio molecular e a radiação solar.

Bem mais próximo da superfície terrestre, na camada da atmosfera que designamos por troposfera, [até aos 10 km de altitude] também existe ozono que tem origem na reação fotoquímica entre os poluentes urbanos, resultando ele próprio um poluente secundário que causa problemas respiratórios graves, irritação ocular e prejudica quer as florestas, quer colheitas.

Há cerca de quatro décadas identificou-se uma degradação da camada de ozono, provocada entre outros por clorofluorcarbonetos (CFC), gases usados, por exemplo em frigoríficos e em aerossóis, que originam radicais de cloro. Cada átomo de cloro pode destruir dezenas de milhares de moléculas de ozono.

Perante uma ameaça de efeitos devastadores, a comunidade internacional adotou medidas firmes e coordenadas para proteger a saúde humana e o ambiente contra os efeitos negativos que resultam das atividades humanas.

Proibir o uso dessas substâncias e emitir o Protocolo de Montreal - permitindo que a camada de ozono recuperasse de forma gradual – a decisão certa.

16 de setembro, este foi o dia proclamado na Resolução 49/114, adotada na Assembleia Geral da ONU de 23 de janeiro de 1995, para sinalizar a importância de cuidarmos da camada de ozono, este escudo natural da Terra.

Este ano celebra-se o Protocolo de Montreal sob o lema «Ação global para um planeta mais fresco». O Protocolo de Montreal demonstrou que políticas sustentadas na participação universal e no compromisso político, são capazes de produzir resultados.

Mochofino diria: Assim queiramos mais vezes — sobretudo quando a ciência nos mostra o caminho.

Universo original de Mochofino.- Ano II

sábado, setembro 12, 2026

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Anda tudo num corrupio

   

Neste tempo de regresso às aulas, surge a oportunidade para fazer uma breve reflexão sobre um momento que todos sabem que vai acontecer, que alguns desejam e que outros nem tanto. Continua a sentir-se a dependência de decisões dos responsáveis pelas estruturas da educação e que tendem a ser tardias.
Na rádio, na televisão, nas redes sociais ou nos jornais não é difícil encontrar opiniões, artigos, notícias ou entrevistas sobre um tema transversal e que toca praticamente a toda uma população. Garantidamente encontramos e ou sentimos que existe uma tensão latente. 
Andam todos a mil à hora ou num corrupio que não se esconde, pelo contrário que se manifesta. Desespera-se pelos horários que ainda não saíram, sofre-se por não se saber se há ou não tardes livres, fazem-se contas ao que se vai pagar na aquisição de material escolar, instala-se a dúvida quanto à compatibilidade dos horários escolares com os horários dos transportes e dos empregos... tudo isto representa desassossego e ansiedade.
Mas não ficam por aqui as preocupações, as novas inquietações envolvem a falta de alguns professores, ATL, atividades extraescolares, atividades desportivas e culturais, centros de explicações, apoio parental aos estudos e até grupos de WhatsApp!..
Este corrupio, centrado nos pais e encarregados de educação, revela também alguma fragilidade das estruturas que deveriam garantir estabilidade e confiança. Mostra como a Escola se tornou reflexo das indecisões e atrasos do sistema educativo.
Por isso, Mochofino não pode deixar de questionar:
De que forma estão disponíveis para intervir de modo a minimizar esta ansiedade, dos pais e dos alunos, que é legítima?
Que meios disponibilizam, e em tempo oportuno, para as escolas que inovam?
Que modelo de currículo oferecem, defendem?
Porque continua o sistema a depender de testes e exames como eixo central?
Que autonomia, verdadeira autonomia, não a falácia que tem sido apregoada, estão dispostos a concretizar?
O corrupio é dos pais, mas também é do sistema educativo que não o enfrenta nem o resolve.

Universo original de Mochofino.- Ano II

 

segunda-feira, setembro 07, 2026

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Podia apresentar algumas curiosidades sobre a escala Fahrenheit, mas …

   

Agora, que um novo ano escolar está a chegar, deixo como sugestão a leitura de um artigo publicado a 30 de julho pelo Jornal Expresso, com o título - Menos leitores, mais livros vendidos. Como se explica o paradoxo português?
O artigo chama a atenção para o facto da percentagem de portugueses que afirma ter o costume de ler por prazer, ter caído de 72% para 59% e realça que a tendência se verifica à escala global.
Mais, faz notar a gravidade do problema referindo que a edição da revista norte-americana “The Atlantic” publicou um ensaio extenso sobre o tema com o título “The Age of Reading is Over” (A Era da Leitura Acabou).
Uma passagem no texto remete-nos para a existência de estudos evidenciando que a proporcional redução dos hábitos de leitura é acompanhada por “… uma diminuição da capacidade de concentração, mas também por uma erosão de competências ligadas ao pensamento crítico, à interpretação e ao processamento sintático e semântico…”
É uma erosão que já se nota no quotidiano: alunos com menor resistência ao esforço mental, pessoas que lutam para manter foco contínuo, cidadãos que participam em debates com argumentos cada vez mais reativos, pouco profundos.
Pensando acerca do tema, recordei Fahrenheit 451, o romance distópico de Ray Bradbury. Atentei que alguns dos mecanismos sociais, tecnológicos e culturais que o autor imaginou estão hoje presentes.
Na obra ficcional, os livros tornaram se ilegais porque a sociedade já os tinha abandonado e os que restavam eram queimados para impedir que as pessoas pensassem, sentissem, comparassem, questionassem. Quem lia era visto como perigoso, estranho, subversivo. 
Hoje, os algoritmos de recomendação empurram para conteúdos fáceis, rápidos, e para notícias instantâneas que substituam análise por reação. Sente-se que paira no ar uma hostilidade ao conhecimento complexo — “se não cabe num vídeo de 30 segundos, não serve”.
Bradbury antecipou uma cultura onde pensar é desconfortável.


Observação: 451 graus Fahrenheit [233 ºC] é o valor clássico aceite para a temperatura de autoignição do papel comum usado nos livros. Curioso, não é?..

Universo original de Mochofino.- Ano II


 

domingo, julho 12, 2026

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Ter pano para mangas

   


 Ter pano para mangas

ou quando um ministro da educação corre atrás do prejuízo porque o sistema o obriga a isso.

Literalmente a expressão “ter pano para mangas” significa haver tecido suficiente para continuar o trabalho de costura ou alfaiataria. Figuradamente, tende a ser interpretado como haver assunto que se prolonga, se complica, se desdobra.
Há uma explicação popular, mas frágil, que tenta ligar a expressão aos séculos XVI–XVIII, quando as mangas das roupas eram longas e luxuosas, mas aquelas eram feitas separadamente e até compradas já prontas.
A origem mais consistente é artesanal, ligada ao século XIX.
Independentemente da sua origem, de forma mais ou menos recorrente a questão dos exames nacionais regressa à ribalta e dia após dia, desmentido após desmentido, aqui temos pano para mangas.  E como não falta a criatividade, agora até surge uma nova dimensão: a possibilidade de indemnização às famílias!
Fica por demais evidente a conceção de um sistema de ensino que tem no exame nacional o seu paradigma! Fraco padrão.
É fraco porque reduz o ensino a uma métrica.
É fraco porque não avalia competências.
É fraco porque cria dependência estrutural.
Desligar os objetivos do ensino secundário do imperativo que é a nota de acesso ao ensino superior impõe-se e é urgente. O momento é de mudanças e as roturas são o tempo certo para decisões ousadas. Esta posição não é pacífica, mas não há razões fortes que a contradigam. 
Carl Rogers assumia não ser desejável que um curso terminasse num exame baseado em livros mais ou menos ditados por um professor que desempenha o papel que lhe é atribuído por costume e tradição e que alguns teimam em perpetuar.
Também é verdade que alguns alunos e outros na comunidade educativa, desejam que os professores lhes proporcionem um pedaço de mercadoria intelectual tratada, de modo a ser memorizada e a ser devolvida em exame. É uma opção legítima.
O simples reconhecimento de factos tem o seu valor, é verdade, mas é pouco, muito pouco! As aprendizagens têm de promover mudanças, alterações significativas. O papel do professor é proporcionar os meios aos seus alunos de modo que possam resolver problemas.
Mochofino está de férias, mas não resistiu. Pousado no seu galho habitual e ao ver a confusão instalada, lembra uma exortação antiga — não sejam um vagão de munições; sejam uma espingarda.
A imagem não nasce da exortação, mas do professor de história que Rogers cita — um homem moldado pela Primeira Guerra Mundial, para quem os factos eram munições e o conhecimento só valia quando disparado.  
Pois bem, enquanto não se romper este paradigma, haverá sempre pano para mangas.
Universo original de Mochofino.

segunda-feira, julho 06, 2026

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Quem espera sempre alcança

    

Quem espera sempre alcança.

Mas há dias em que a atitude das pessoas parece provar o contrário: preferem lavar as mãos como Pilatos, fugir e evitar o que lhes toca. Em vez de enfrentarem os problemas e se responsabilizarem, agem como se nada tivesse a ver com elas e afastam‑se.

Pouco lhes importa o que pode acontecer aos outros; não poucas vezes apelam a um lado mais cristão e incitam os demais a fazer bem, sem olhar a quem, como se a bondade fosse um gesto automático, desligado da responsabilidade de olhar verdadeiramente o outro.

Por vezes cometem verdadeiras loucuras — mas todos sabemos que loucuras não remedeiam loucuras, e que a pressa de decidir raramente conduz aos melhores resultados, pois depressa e bem, não há quem. À mesa do café, ah… aí são todos sábios. Cada um com a sua verdade, porque cada cabeça sua sentença.

Defendem ideias apenas porque sim, ou porque gostam de servir, ainda que, muito frequentemente, quanto mais se serve, menos se vale.

Há também quem esconda as suas verdadeiras intenções: mostram o pão, mas escondem a pedra. E se, por alguma razão, lhes é dada a oportunidade de terem algum poder — mesmo que seja pouco ou por pouco tempo — rapidamente o carácter se revela, e o provérbio ganha credibilidade: Põe-lhe uma vara na mão e conhecerás o vilão.

Outros limitam‑se a seguir sem pensar, porque ovelhas bobas, para onde vai uma vão todas. E há os que fogem quando o momento aperta, porque adeusinho é sempre mais docinho. E os que só percebem a gravidade das coisas quando o trabalho difícil chega e a porca finalmente torce o rabo.

Mas não podemos esquecer os que, em desespero, fazem o que for preciso para manter o lugar — não hesitam, pois tal como o diabo, quando se viu desesperado, meteu‑se moleiro. Também os que explodem por tudo e por nada aqui merecem uma palavra, porque ferver em pouca água é a forma mais rápida de parecer forte.

No fim, tudo isto revela o que sempre soubemos: a condição humana é frágil e contraditória, capaz de gestos nobres e de fugas vergonhosas. Mochofino sabe que os provérbios sobrevivem porque mostram caminhos, desvios e possibilidades de escolha. E, com postura, com silêncio ou com um leve bater de asas, lembra‑nos que a escolha, mesmo pequena, é sempre nossa.

Universo original de Mochofino.


domingo, junho 28, 2026

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Ferver em pouca água

   

Junho começa no toque da luz — o ar muda, a pele sente. Anuncia o verão. As manhãs são claras, ao longo do dia o calor aperta. Mas ainda não é verão e a estabilidade não existe.

De vez em quando, há tardes em que o céu se cobre de nuvens como quem faz uma birra e uma ou outra trovoada aparece sem avisar. São, ainda, de esperar noites frescas.

Junho vive dividido — quer ser verão, mas ainda sonha primavera. É um mês que ainda está a aprender a ser verão, que só chegará na última semana.

Talvez por isso junho nos lembre a juventude.

A rebeldia juvenil é ensaio: limites testados, erros que ainda não pesam. O corpo e a mente descobrem até onde podem ir. Tal como junho, estão a crescer.

O que inquieta não é um jovem ferver em pouca água; o preocupante é um adulto continuar em ebulição como se tivesse quinze anos. A idade adulta traz consigo a expectativa de mais contenção, mais memória.

Para educar uma criança é preciso toda uma aldeia — um clima estável, um calor que aqueça sem queimar. Todo o tempo do mundo, todo o conhecimento acumulado, toda a paciência que só a vida ensina.

Quem chega à idade adulta sem ter aprendido a controlar o seu “calor interno” é alguém que não ouviu a aldeia, ou não a teve, ou não quis aprender com ela.

No sentido vulgar, ferver em pouca água é perder a calma por quase nada. Na cozinha, é arte de conter o excesso; na vida, é sinal de quem ainda não aprendeu a esperar.

Como diria Mochofino, a juventude ferve depressa porque está a aprender a controlar o lume.

Junho também, no seu lume ainda incerto.

O verão chega quando o lume estabiliza.

Universo original de Mochofino.


domingo, junho 21, 2026

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Roma e Pavia não se fizeram num dia

   

Portugal foi fustigado, num curto intervalo de tempo, por uma sucessão de depressões atlânticas que deixaram a zona centro em ruína. A tempestade Kristin foi a mais violenta: arrancou árvores pela raiz, cortou-as ao meio, destruiu estradas, derrubou postes, arrasou casas e deixou a paisagem irreconhecível. A dimensão dos prejuízos tornou evidente que a recuperação não se mede em semanas. Levará meses, anos — e, no caso da floresta, décadas.

Há dias passei pela região afetada. Muitas árvores continuam quebradas, inclinadas como testemunhas de algo que passou depressa demais. A paisagem é desoladora, marcada pelo que desapareceu e pelo que ainda não regressou.

Foi nesse momento que surgiu na memória o provérbio e a curiosidade de o revisitar. “Roma e Pavia não se fizeram num dia” fala de tempo, persistência e construção lenta. A tempestade mostra o contrário: destruição súbita, violência, fragilidade das coisas feitas pelo homem.

A tempestade derruba em minutos o que levou anos a erguer. O provérbio lembra que reconstruir leva tempo.

A máxima nasce na Idade Média francesa e dizia apenas que "Roma não se fez num dia". A versão portuguesa acrescentou Pavia, e é geralmente aceite que o fez por necessidade rítmica com a palavra dia.

Uma leitura apressada tende a diminuir a importância de Pavia perante Roma. Será verdade se pensarmos apenas em imponência, grandiosidade ou civilização antiga. Mas, cultural e historicamente, Pavia não é de desprezar: foi capital da Lombardia, centro universitário de prestígio e palco de episódios decisivos da história europeia.

A rima pode ter guiado a forma, mas não apaga o peso da cidade.

Mochofino diria que, entre a rapidez do que cai e a lentidão do que se levanta, ficamos nós — a aprender a ser pacientes, a aceitar que a obra humana é sempre mais frágil do que gostaríamos e que tudo leva tempo a fazer.

Universo original de Mochofino.

domingo, junho 14, 2026

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Junho, dorme-se sobre o punho

   

O verão aproxima-se, e o calor intenso desta Cova da Beira começa a lembrar-nos, de forma brusca, que o tempo quente está a chegar.

Há dias em que o sol não aquece: queima. E o corpo, sensato, começa a abrandar - não por preguiça, mas por instinto. 

Resolvemos procurar um provérbio que fosse capaz de traduzir um sentimento de rendição à força do calor. Ao calor que dobra a nossa vontade. Encontrámos este: “Junho, dorme se sobre o punho.”

Não procurámos mais. A imagem formou-se de imediato: alguém sentado, dobrado sobre si, a cabeça pousada no braço, a pedir ao mundo cinco minutos de tréguas. Não para pensar, para não cair.

A imagem era tão nítida que fomos procurar um quadro que a confirmasse. Encontrámos Le Réveil du Faucheur, de Léon Augustin Lhermitte: um ceifeiro exausto, apanhado no instante em que o corpo decide por ele.

Não podemos mostrar o original; Mochofino fez a sua versão e, claro, entrou no quadro — a versão com o calor da Cova da Beira, porque quem aqui vive sabe o que é dobrar‑se à força do calor.

E assim voltamos ao princípio: o verão chegará sem pedir licença e o corpo abranda. Temperaturas altas não pedem feitos; pedem sombra, pedem pausa. Não por preguiça, mas por economia de forças.

O provérbio não engana: em junho, quando o calor manda, o corpo obedece. Sesta não é luxo — é estratégia.

Obs.: Vale a pena ver o quadro original. E vale o caminho — Mochofino aprecia leitores que se mexem.

Universo original de Mochofino

 

sábado, junho 06, 2026

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Adeusinho que é mais docinho / Adeusinho, que é mais docinho

   

Há gestos pequenos que nos ensinam mais do que parecem.
Um deles é este:
- mexer o café, mesmo sem açúcar.
É simples, quase automático, mas lembra‑nos que nada deve ser deixado de lado — como a espuma que fica à tona, deixando escapar para o ar parte do aroma.
Há ideias que precisam de ser mexidas, bem mexidas!

No Dia Mundial do Ambiente, detivemo‑nos nesta observação. Tal como no café que não se mexe — e onde a espuma fica à tona - também há propostas que parecem inteligentes, mas que não passam de preguiça mental embrulhada em papel vistoso, pronta para consumo imediato.

Recordamos a velha ideia de meter uma garrafa dentro do autoclismo para poupar água. Foi apresentada como solução criativa, quase visionária. No entanto, sempre existiu o mecanismo que permite ajustar a posição de boia, diminuindo a quantidade de água usada em cada descarga.
A solução existia, discreta e eficaz, mas preferimos a garrafa: fácil de repetir, perfeita para parecer ação sem exigir pensamento crítico.

Mochofino observa como se multiplicam soluções mágicas — brilhantes à primeira vista, frágeis quando a reflexão chega.

É assim em tantas discussões ambientais: queremos energia limpa, queremos soluções rápidas, mas não paramos para perceber o que está por trás delas. 
E talvez seja esse o problema: falta‑nos uma vírgula, a pausa mínima que muda o sentido de uma frase. O momento em que se evita o impulso e se escolhe a reflexão. E isto não é novo.

Curiosamente, até os provérbios nos avisam — e vale a pena reparar neste exemplo, com duas versões:  
“Adeusinho, que é mais docinho.”
“Adeusinho que é mais docinho.”
Com vírgula, há pausa e ironia — um afastar suave, quase doce, antes que seja tarde.
Sem vírgula, tudo corre de uma vez: um adeus rápido, dito enquanto já se vira costas.
Duas formas, duas intenções — e ambas nos lembram que a diferença está sempre no gesto.
No fundo, o ambiente pede‑nos isto: menos truques, mais pensamento; menos garrafas, mais boias; menos frases feitas, mais café mexido — mesmo sem açúcar.

Universo original de Mochofino.

domingo, maio 31, 2026

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Quanto mais se serve, menos se vale

 

Há momentos em que o acaso junta o que ninguém esperaria ver ligado. E, quando se olha com atenção, percebe‑se que não é assim tão raro.

A leitura do provérbio ‘Quanto mais se serve, menos se vale’ coincidiu com um episódio quase rocambolesco protagonizado por duas figuras públicas. A coincidência é, por si só, reveladora.

Sobre a utilização da base das Lajes, dizem coisas diferentes — e até contraditórias. Um garante que houve autorização sem pedido. O outro afirma que o pedido só surgiu depois da missão estar concretizada.

Esta situação caricata e preocupante fez-me recuar ao primeiro texto que publiquei no blogue —o que me levou a iniciar este caminho na tentativa de perceber o que se esconde por detrás de cada provérbio.

Recordo “Não sei qual o momento, muito menos o contexto, em que pela primeira vez ouvi: A tudo Nosso Senhor nos leva, se a saúde não nos faltar".

Mochofino, sempre atento ao que se passa, já não se espanta. Agita-se e incomoda-se com a repetição deste velho padrão humano, que tende a repetir-se. É apenas mais um capítulo da eterna história entre quem serve e quem é servido.

O episódio interessa pelo reflexo que produz e mostra, de forma crua, que quem serve demasiado acaba tratado como quem não precisa de saber. Quando alguém se habitua a servir, o outro habitua-se a não explicar.

Quem serve acredita que faz o que deve ser feito — e que isso será reconhecido. O que não espera é que quem é servido tome o gesto como natural. É precisamente aqui que o provérbio captura crueldade da realidade, dar tudo e ainda assim valer menos.

Importa perceber que é possível servir, mas sem se apagar.

Servir é nobre. Mas servir sem medida leva o outro a não medir o valor do que recebe.

Universo original de Mochofino.

sábado, maio 23, 2026

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Maio que não der trovoada, não dá coisa estimada.

   

Maio tem destas coisas: um provérbio que está longe de gerar consensos — pelo contrário, parece feito para os baralhar.

E não admira: basta uma chuvada para alguns anunciarem o fim do mundo agrícola e outros agradecerem aos céus como se tivessem recebido uma bênção rara.

Todos sabem que não é possível agradar a gregos e a troianos, não se pode ter sol na eira e chuva no nabal.

O provérbio diz: “Maio que não der trovoada, não dá coisa estimada.” Perguntem aos produtores de cereja. A resposta será: trovoada, não.

Pois é, o trigo agradece a trovoada, a cereja teme-a; onde o cereal vê promessa, o fruto vê ameaça.

O ditado nasce da observação de um Portugal cerealífero: a chuva e o calor de maio favoreciam a produção e anunciavam um ano de pão. Nessa paisagem, a trovoada era sinónimo de segurança alimentar.

Convém, porém, distinguir: trovoada sem granizo pode trazer humidade e calor úteis; granizo ou chuva intensa trazem queda de fruta e doenças fúngicas — prejuízos imediatos para pomares de alto valor, como os de cereja.

As culturas mudaram e o mapa rural alterou-se. Por isso, a leitura dos provérbios não pode ficar reduzida à citação: precisa de enquadramento histórico, económico e climático.

Entender o que o ditado popular dizia e o que já não diz, exige contextualização; perceber o que ainda pode dizer exige investigação e recolha de informação.

Manter as expressões populares é um ato de respeito pela cultura; interpretá-las com rigor é um dever intelectual. Só assim o provérbio passa a ser uma chave para compreender como mudámos e o que, do saber antigo, ainda nos serve.

Maio dá refrões, rimas e contradições. Este provérbio é um convite para ver e ler a tradição com olhos críticos. 

Universo original de Mochofino

sábado, maio 16, 2026

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Em maio, come as cerejas ao borralho

Até onde a nossa memória nos conduz, as cerejas surgem como um dos primeiros frutos de verão. 
O provérbio “Em maio come as cerejas ao borralho” revela o paradoxo entre o fruto que anuncia o verão e o frio que ainda domina o mês.

A leitura “meteorológica” faz pleno sentido: maio traz as primeiras cerejas, mas o corpo continua a pedir o calor das brasas, razão pela qual o provérbio recomenda que sejam apreciadas junto ao borralho.

O provérbio funciona como indicador fenológico e térmico — quando há cerejas o ciclo da estação avança, mas o frio de maio aconselha contenção.
O fruto chega cedo, mas o verão ainda tarda.

Embora a origem do provérbio não esteja documentada, a relação entre fruto temporão e espera prudente também a encontramos no blogue:
“…bom, bom, era mesmo esperar pela noitinha, fria a pedir fogueira e borralho, e …/… vendo o dono cansado depois de ter perdido meio-dia de espera…/… ir comer umas cerejas”.
“Era tão bom ir roubar cerejas!” [contextualize-se a afirmação!]

A sabedoria do mundo rural completa o ciclo com dois outros provérbios que marcam a progressão natural do fruto: — “Em maio as cerejas, uma a uma, leva-as o gaio” e “Em junho, a cesto e a punho.” Da escassez à abundância, da espera à colheita.
Um provérbio espanhol reforça esta lógica sazonal e fixa o momento ideal da apanha: “Por San Juan, cerezas en la mano.”
A cereja, afinal, é um relógio natural que mede a passagem da primavera para o verão.

 Universo original de Mochofino

domingo, maio 10, 2026

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Meter-se numa camisa de onze varas


Se o provérbio não fosse tão conhecido, poderia sugerir que alguém ousou vestir uma camisa de onze varas.
Se assim fosse estaríamos perante um problema de alta-costura, porque produzir uma camisa a partir de onze varas seria uma tarefa difícil e arrojada.
Mas meter-se numa camisa de onze varas não é um problema de costura. É um convite ao desastre ou à situação de dificuldade iminente.
Essa camisa, literal ou metaforicamente, junta três coisas que ninguém quer ao mesmo tempo: desconforto, exposição e responsabilidade.
Serve tanto para quem se quer expor, sentindo-se diferente, como para quem se dispõe a aceitar um negócio sem ler o contrato.
O resultado parece apontar para o mesmo:
explicações pouco convincentes, pedidos de desculpas tardios e arrependimentos públicos.
Na prática, a expressão é um aviso com uma camada de sarcasmo evidente. Quando alguém diz que outro se meteu numa camisa de onze varas, está a dizer, de forma mordaz, que a pessoa não vai por bom caminho.

Mas o que estará na origem desta expressão? 
Na expressão registada no Dicionário de Expressões Correntes, de Orlando Neves (Editorial Notícias), afirma-se que "pano de varas era um tecido grosseiro, uma espécie de saragoça.
Era dele que se faziam as vestes com que os condenados, por exemplo, no tempo da Inquisição, eram levados para o suplício.”
Na obra "Holanda", Ramalho Ortigão, refere-se ao vestuário de certas figuras, como feito com tecido “semelhante ao nosso antigo pano de varas, com altas golas de veludo até à nuca". 
Por sua vez o rei D. Manuel I obriga Luís Góis a entregar a Álvaro Fernandes, capelão do dito senhor, 23 varas de pano para 3 alvas e para panos de cálice e 11 varas de forro … e atendendo a que a vara era uma medida usada à época, onze varas seriam cerca 12,1 metros.
Conjugando estas três referências, Mochofino teria deixado o seguinte aviso:
- Se alguém lhe propõe vestir uma camisa destas, recuse com educação.
Se já a vestiu, desfile com cuidado e tente que o tropeção não seja demasiado violento.

Universo original de Mochofino

domingo, maio 03, 2026

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Mãe velha e camisa rota não desonram

 

"Mãe velha e camisa rota não desonram".


Com um dia tão especial para celebrar, não podia deixar passar o dia sem um provérbio com uma força especial.
Nem a mãe envelhecida, nem a camisa gasta pelo uso são motivo de vergonha — pelo contrário, são sinais de vida, de história, de pertença.
O provérbio revela cuidado acumulado, pertença, honra, gratidão e orgulho.

A imagem não é silenciosa pois falam as mãos.
As mãos contam a história inteira. No toque entre mãe e filho(a), o dia encontra o seu significado. Feliz Dia das Mães.

quinta-feira, abril 30, 2026

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Trabalho é meio de vida e não de morte

Uma semana depois de Abril, e no dia em que se celebra o 1.º de Maio,

Mochofino detém-se no tema que é caro a ambos: o trabalho.

Não é difícil encontrar um ditado que inclua a palavra.

Todos a associamos a atividades, físicas ou intelectuais, que permitem alcançar objetivos, produzir bens ou prestar serviços.

O trabalho dignifica. E a sua dignidade assenta em pilares fundamentais: liberdade na escolha, direitos, proteção social e diálogo.

Mas a atenção recaiu sobre: Trabalho é meio de vida e não de morte. 

Desde logo porque envolve dois vocábulos antónimos ligados pela palavra trabalho. Longe estávamos de imaginar onde nos levou a origem da palavra.

A palavra surpreende. Vem de um instrumento de tortura, composto por três varas ou paus, o tripalium. E isso muda a forma como a lemos. Tripaliare era um verbo que significava torturar no tripalium. Daí evoluiu para o francês travailler e, mais tarde, para o português trabalhar.

Com o tempo, o sentido evoluiu para representar um esforço muito intenso e, mais tarde, para exercer um ofício. Mas o sentido inicial era literal: trabalhava quem era castigado. Estava associado à punição ou à condição (escravos), provocava dor extrema e, não poucas vezes, a morte.

O provérbio afirma que o trabalho existe para sustentar a vida, não para a destruir.

Coloca a vida humana acima da produtividade.

Confronta jornadas excessivas, precariedade, exploração e a normalização da dor no trabalho.

Lembra que o trabalho é um meio, nunca um fim.

Deve elevar a dignidade, não sacrificá‑la.

Mochofino apreendeu a profundidade do provérbio e o seu alerta: meio de vida, não de morte.

Universo original de Mochofino

sábado, abril 25, 2026

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As portas que Abril abriu

Os provérbios denunciam o que está errado e revelam o abuso do poder, o silêncio imposto; são simples demais para serem cómodos e tão verdadeiros que não podem ser ignorados.
Esta semana, porém, Mochofino não traz um provérbio, mas uma frase, “As Portas que Abril Abriu”.
Esta frase, título de poema de Ary dos Santos, tornou-se maior do que o poema. Ela sintetiza com simplicidade e com verdade a abertura histórica, política e moral trazida pela Revolução dos Cravos.
O 25 de Abril de 1974 abriu portas que estavam trancadas há quase meio século e “As portas que Abril abriu” é a imagem que descreve a passagem do escuro para a luz, do silêncio imposto por uma ditadura para a palavra livre, para: 

A verdade sem censura.
A escola pública universal.
O serviço nacional de saúde.
A liberdade de criar, pensar, discordar.
E votar.

E com as portas que Abril abriu, terminou um período asfixiante de:
Livros proibidos, jornais censurados, reuniões vigiadas…

Hoje, quando tudo parece tão fácil de trocar, opinião por aplauso ou autonomia por algoritmo…é necessário lembrar que a liberdade exige trabalho, vigilância e desconforto. Não é um descanso: é um exercício contínuo.

E é por isso que o 25 de Abril continua atual e deve ser assinalado e festejado, não como nostalgia, mas como um grito de atenção.
Abril ensinou‑nos a abrir portas.
Cabe‑nos impedir que as fechem outra vez.
“Liberdade, palavra que o sonho humano alimenta,  
Que não há ninguém que explique,  
E ninguém que não entenda.”  
— Natália Correia, “Cântico da Liberdade” (1993)

 Universo original de Mochofino

domingo, abril 19, 2026

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Mostram o pão e escondem a pedra

 

Depois de ‘põe lhe uma vara na mão e conhecerás o vilão’, surge outro aviso antigo: ‘mostram o pão e escondem a pedra’.
Este provérbio foi, possivelmente, recolhido por Eufrónio de Évora – que à semelhança de outros humanistas compilava sentenças morais no século XVI.
De maneira muito transparente o provérbio associa o pão ao benefício e a pedra ao custo oculto. Todavia denuncia promessas enganosas, ofertas que se apresentam como generosas, mas que escondem riscos para quem as aceita.
Tende-se a olhar para quem oferece pão (progresso, proteção, defesa de valores, …) como alguém de boa-fé, de boa vontade.
A vida obriga a aceitar condições duras, mas há limites — e Mochofino conhece-os. Acontece que ofertas altruístas são muito poucas e importa estar atento, identificar o outro pão, o que resulta em fortes benefícios para quem oferece.
Mas há quem não goste de ser desmascarado ou posto em causa e ao constatar que existe dúvida, não hesita em aumentar o volume do seu discurso e ou recorrer à ameaça:
- Cai a máscara ao vilão!
Tal como no século XVI, também hoje aceitamos com facilidade a atualidade desta expressão. Se antes o pão era literal, agora é digital, servido em ecrãs luminosos.
A pedra está nos termos e condições, nas letras pequeninas ou bem dissimulada numa agenda própria com objetivos bem definidos:
- A pedra que vira pão — mas só para quem a atira.
Há uma narrativa visível e uma parte que não se mostra, mas desenganem-se os que oferecem ou falam como quem faz um favor ao mundo, pois Mochofino, sempre atento, vê o pão e a pedra, mas percebe o truque, o custo escondido e denuncia-o: pão → o bem aparente | pedra → o dano oculto: - A pedra escondida não escapa aos mais simples.
No fim, o que se esconde — o benefício ou o prejuízo?

Universo original de Mochofino

segunda-feira, abril 13, 2026

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Põe-lhe uma vara na mão e conhecerás o vilão

   

Como sempre é possível interpretações diversas para os provérbios, algumas chegam a ser antagónicas!

A expressão “vara na mão” tem um significado ligado à ideia de autoridade, poder de correção ou capacidade de impor disciplina.

Mas, associada ao exercício do poder (ainda que lida como metáfora para a autoridade) e ao recurso à palavra vilão, faz emergir a ideia de autoritarismo.

A leitura mais comum transporta-nos para a ideia de que a verdadeira natureza das pessoas somente será conhecida quando detêm o poder. Esta é a interpretação moderna e é um desvio tardio: nasce da desconfiança do poder.

Ora, do ponto de vista cultural, a vara é medida e critério, o vilão é quem se afasta da medida e quando há vara, o desvio torna se visível. O vilão é revelado.

Por isso Mochofino ousa afirmar que o provérbio não diz que a vara cria o vilão e não diz que a vara identifica o vilão. O que o provérbio diz é que a vara revela o vilão!

Olhando para o presente, é natural que as pessoas façam uma leitura moderna projetada sobre o provérbio identificando o modo de atuar de decisores políticos que, com o poder que a vara lhes concede, se tornam ou se revelam como verdadeiros vilões.

Numa conceção crítica do mundo atual, quem recebe a vara pode tornar se vilão, pois o poder corrompe, mas esta é uma visão moderna, marcada pela ironia.

Universo original de Mochofino

domingo, abril 05, 2026

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Loucuras não remedeiam loucuras

 
Talvez não seja dos provérbios mais conhecidos, mas não parece daqueles que envolvam múltiplas camadas de interpretação.
A loucura, mais do que um termo médico, é uma construção social e cultural usada identificar desvios. Os deuses do Olimpo eram frequentemente retratados como seres passionais e vingativos, que utilizavam a “loucura divina" como uma ferramenta para demonstrar o seu poder sobre os mortais.  Mas hoje, a loucura já não vem dos deuses, mas das decisões humanas.
Mochofino está inquieto, pois paira no ar que o futuro trará uma serra ferida, esburacada, e um rio poluído. E murmura: loucuras não remedeiam loucuras.
A pressa humana raramente escuta o som da água corrente.
O lítio é hoje símbolo de transição para um modelo de desenvolvimento mais verde e apresentado como uma necessidade estratégica, mas há um recurso mais crítico do que o lítio: a água.
Como forma de tranquilizar defende-se que a exploração será feita com segurança e tecnologia avançada, com monitorização permanente, recorrendo a boas práticas ambientais, mitigação de impactos e planos de recuperação paisagística.
Mas a geologia da Argemela e a proximidade do Zêzere tornam esta promessa frágil!
Extrair lítio numa encosta inclinada, com solos instáveis e linhas de água rápidas, sobre um rio que alimenta meio país, é uma decisão que não resiste a uma análise mais profunda.
É verdade que o lítio tem um papel importante na transição energética, mas exige inteligência, não precipitação.
Importa ter em atenção que a tecnologia está a evoluir para baterias menos dependente de lítio, que a reciclagem de baterias tenderá a reduzir a procura.
Mais, a maior parte do lítio usado a nível mundial não vem de minas a céu aberto. 
Esventrar uma serra com recurso a dinamite e a escavadoras, não será uma loucura geológica? A Serra da Argemela, o rio Zêzere, todo o território do interior e as suas populações exigem respeito e atenção, não decisões rápidas e pouco pensadas.  
Sem água, não há vida, não há agricultura, não há permanência.
Sacrificar água para obter lítio é trocar o essencial pelo útil.
Assim, questionamo-nos se, para combater um problema energético se tenha de destruir uma serra e pôr em causa a qualidade da água de um dos maiores rios portugueses, não estaremos perante uma decisão de remediar uma loucura com outra.

 Universo original de Mochofino

domingo, março 29, 2026

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Lavar as mãos como Pilatos

 
O calendário diz-nos que vivemos no tempo da Quaresma e, no Fundão, regista-se um dos momentos mais fortes do calendário religioso. 
As manifestações religiosas vão acontecendo e tudo se intensifica: procissão do Senhor da Cana Verde, enterro do Senhor, visitação das capelas, Via Sacra…e esta circunstância levou-nos até ao provérbio “Lavar as mãos como Pilatos”.
Esta expressão tornou-se muito comum e interpretada como sinónimo de fuga moral: o gesto de quem se demite da responsabilidade, mesmo perante a evidência da verdade.
Abluir significa lavar, limpar ou purificar com água e é usado em contextos litúrgicos. O ato de abluir significa lavar com intenção ritual, é um gesto simbólico, com valor espiritual. 
Não deixa, pois, de ser curioso, que no intervalo de dois dias este ritual aconteça com significados bem distintos: na Quinta-feira Santa Jesus Cristo inclina-se para lavar os pés dos seus discípulos e Pôncio Pilatos lava as suas mãos na Sexta-feira Santa.
No primeiro caso o gesto revela uma ablução verdadeira: purificação que nasce do serviço, da entrega, da humildade; já o segundo surge como uma ablução inversa. Lavar as mãos para parecer purificado, qual cena performativa, não espiritual.
A ablução tradicional é um gesto de responsabilidade moral, Pilatos transforma-a num gesto de evasão moral.
Com esta ação a Igreja Católica identifica esta personalidade como a autoridade que permitiu a condenação de Jesus Cristo e mantém no Credo — “Jesus padeceu sob Pôncio Pilatos”.
Já a tradição ortodoxa, por exemplo na Etiópia, ousou vê-lo de outra forma: um homem que, arrependido, teria encontrado redenção, passando a ser venerado como mártir. Entre culpado e santificado, na tradição cristã não há unanimidade.

O Evangelho de Mateus não menciona o nome da esposa de Pilatos, mas a tradição, incluindo textos apócrifos como o Evangelho de Nicodemos, identifica-a como Cláudia Prócula. É ela quem, perturbada por um sonho, lhe envia a mensagem: “Não te envolvas com esse justo.”
A advertência abre uma fissura na narrativa: Pilatos não é apenas símbolo de fuga; é também o homem dividido, tocado por uma verdade que o ultrapassa.
E é precisamente no gesto da água — esse espelho silencioso que revela mais do que lava — que tudo converge.
A água não mente, diz sempre quem és.

Universo original de Mochofino
 

Autor - José Pina

Autor - José Pina
Universo original de Mochofino