segunda-feira, outubro 26, 2026
sábado, outubro 17, 2026
A Física do pôr do Sol – O segredo das cores - 2ª parte
Vamos agora tentar compreender como se formam os esplendorosos pores do Sol.
No interior do Sol ocorrem reações de fusão nuclear, convertendo hidrogénio em hélio e libertando enormes quantidades de energia sob a forma de radiação eletromagnética. Essa energia acaba por chegar à superfície solar e é emitida sob a forma de fotões, as partículas da luz, associados a diferentes frequências e comprimentos de onda.
De toda a radiação emitida pelo Sol, apenas uma pequena fração pertence à região visível do espectro eletromagnético, referimo-nos a ela como luz solar e é percecionada pelos nossos olhos como luz branca, resultante da combinação de todas as cores do espectro visível (cores do arco-íris). É esta luz que está na origem dos magníficos pores-do-Sol.
Quando a luz atravessa a atmosfera terrestre, as diferentes cores não são afetadas da mesma forma. As radiações de menor comprimento de onda, como o azul e o violeta, são mais fortemente dispersadas pelas moléculas dos gases presentes no ar, num fenómeno conhecido como dispersão de Rayleigh.
Quando o Sol está mais alto no céu, a luz percorre uma camada relativamente fina da atmosfera. As moléculas dos gases da atmosfera dispersam mais intensamente a luz azul do que a vermelha. Embora a luz violeta seja dispersada ainda mais intensamente do que a azul, os nossos olhos são menos sensíveis a essa cor. Por isso, o céu apresenta-se com aquela cor azul característica.
Ao pôr do sol, a luz tem de percorrer um trajeto mais longo através da atmosfera e grande parte da luz azul e violeta é dispersada para fora da linha de visão. Permanecem predominantemente os comprimentos de onda mais longos, correspondentes aos tons amarelos, laranja e vermelhos.
Além da dispersão de Rayleigh, também entram em jogo partículas de maiores dimensões, como poeiras dos desertos, fumo de incêndios e gotículas de água. Estas partículas provocam a designada dispersão de Mie, contribuindo para intensificar os tons vermelhos e alaranjados.
Quando observamos um magnífico pôr do Sol, estamos a assistir ao resultado de vários fenómenos físicos que envolvem a natureza da luz e a composição da atmosfera. A beleza que contemplamos é, afinal, a Física em ação.
Universo original de Mochofino.- Ano II
sexta-feira, outubro 16, 2026
A Física do pôr do Sol - A natureza da luz [1ª parte]
Vamos tentar responder, de forma simples e contextualizada.
Comecemos por perceber o que é a luz, qual a sua natureza.
Explicar o que é a luz e qual a sua natureza, é um problema que dividiu opiniões e gerou enormes discussões durante mais de dois milénios. No entanto, o debate científico concentra-se entre os séculos XVII e XX.
No século XVII surge uma grande controvérsia entre Newton, que defendia que a luz era constituída por pequenas partículas emitidas pelas fontes luminosas e Huygens que propunha que a luz era uma onda que se propagava através do hipotético “éter”.
A explicação avançada por Newton foi a mais aceite, muito devido ao enorme prestígio que recolhia entre a comunidade científica. Mas no início do século XIX a teoria ondulatória ganhou um forte apoio quando Young demonstrou experimentalmente que a luz sofria interferência ao atravessar duas fendas muito estreitas.
Se a luz fosse constituída apenas por partículas, esperar-se-iam duas bandas luminosas. No entanto, surgiu uma sucessão de faixas claras e escuras.
Algumas décadas mais tarde Maxwell demonstrou teoricamente que a luz corresponde a uma onda eletromagnética, a questão parecia resolvida: a luz era uma onda.
No início do século XX surgem alguns fenómenos que a teoria ondulatória não consegue explicar. Planck introduz o conceito de quantum de energia e Einstein explica o efeito fotoelétrico admitindo que a energia está quantizada, desenvolvendo a ideia proposta por Planck. A luz revela assim uma componente corpuscular, descrita através dos fotões.
Nos anos 20, com o desenvolvimento da Mecânica Quântica por Heisenberg, Schrödinger e outros físicos, consolidou-se a ideia de que a luz manifesta propriedades ondulatórias e corpusculares. Com De Broglie surgiu a ideia de que esta dualidade não é exclusiva da luz: toda a matéria possui igualmente natureza dual. Esta dualidade onda-partícula constitui um dos pilares da Mecânica Quântica.
Universo original de Mochofino.- Ano II
quarta-feira, outubro 07, 2026
Falar pelos cotovelos
sábado, setembro 26, 2026
A arrogância vem antes da perda
domingo, setembro 20, 2026
Pedro Hispano - Papa João XXI - 750 anos do seu pontificado
quarta-feira, setembro 16, 2026
Bom ozono, mau ozono e Protocolo de Montreal
O papel do ozono depende exclusivamente do contexto atmosférico em que se encontra. Por isso, a classificação de “bom” ou “mau” não descreve a molécula, mas sim a função que desempenha. Então, porque surge esta distinção?
A camada de ozono, localizada na atmosfera e em concreto na estratosfera, entre os 20 e os 35 km de altitude, filtra uma parte da radiação ultravioleta [UV-B e UV-C] que atinge a Terra e, deste modo, atua como camada protetora da vida deste nosso planeta azul. Esta camada tem origem na reação química que ocorre entre o oxigénio molecular e a radiação solar.
Bem mais próximo da superfície terrestre, na camada da atmosfera que designamos por troposfera, [até aos 10 km de altitude] também existe ozono que tem origem na reação fotoquímica entre os poluentes urbanos, resultando ele próprio um poluente secundário que causa problemas respiratórios graves, irritação ocular e prejudica quer as florestas, quer colheitas.
Há cerca de quatro décadas identificou-se uma degradação da camada de ozono, provocada entre outros por clorofluorcarbonetos (CFC), gases usados, por exemplo em frigoríficos e em aerossóis, que originam radicais de cloro. Cada átomo de cloro pode destruir dezenas de milhares de moléculas de ozono.
Perante uma ameaça de efeitos devastadores, a comunidade internacional adotou medidas firmes e coordenadas para proteger a saúde humana e o ambiente contra os efeitos negativos que resultam das atividades humanas.
Proibir o uso dessas substâncias e emitir o Protocolo de Montreal - permitindo que a camada de ozono recuperasse de forma gradual – a decisão certa.
16 de setembro, este foi o dia proclamado na Resolução 49/114, adotada na Assembleia Geral da ONU de 23 de janeiro de 1995, para sinalizar a importância de cuidarmos da camada de ozono, este escudo natural da Terra.
Este ano celebra-se o Protocolo de Montreal sob o lema «Ação global para um planeta mais fresco». O Protocolo de Montreal demonstrou que políticas sustentadas na participação universal e no compromisso político, são capazes de produzir resultados.
Mochofino diria: Assim queiramos mais vezes — sobretudo quando a ciência nos mostra o caminho.
sábado, setembro 12, 2026
Anda tudo num corrupio
segunda-feira, setembro 07, 2026
Podia apresentar algumas curiosidades sobre a escala Fahrenheit, mas …
O artigo chama a atenção para o facto da percentagem de portugueses que afirma ter o costume de ler por prazer, ter caído de 72% para 59% e realça que a tendência se verifica à escala global.
Mais, faz notar a gravidade do problema referindo que a edição da revista norte-americana “The Atlantic” publicou um ensaio extenso sobre o tema com o título “The Age of Reading is Over” (A Era da Leitura Acabou).
Uma passagem no texto remete-nos para a existência de estudos evidenciando que a proporcional redução dos hábitos de leitura é acompanhada por “… uma diminuição da capacidade de concentração, mas também por uma erosão de competências ligadas ao pensamento crítico, à interpretação e ao processamento sintático e semântico…”
É uma erosão que já se nota no quotidiano: alunos com menor resistência ao esforço mental, pessoas que lutam para manter foco contínuo, cidadãos que participam em debates com argumentos cada vez mais reativos, pouco profundos.
Pensando acerca do tema, recordei Fahrenheit 451, o romance distópico de Ray Bradbury. Atentei que alguns dos mecanismos sociais, tecnológicos e culturais que o autor imaginou estão hoje presentes.
Na obra ficcional, os livros tornaram se ilegais porque a sociedade já os tinha abandonado e os que restavam eram queimados para impedir que as pessoas pensassem, sentissem, comparassem, questionassem. Quem lia era visto como perigoso, estranho, subversivo.
Hoje, os algoritmos de recomendação empurram para conteúdos fáceis, rápidos, e para notícias instantâneas que substituam análise por reação. Sente-se que paira no ar uma hostilidade ao conhecimento complexo — “se não cabe num vídeo de 30 segundos, não serve”.
Bradbury antecipou uma cultura onde pensar é desconfortável.
Observação: 451 graus Fahrenheit [233 ºC] é o valor clássico aceite para a temperatura de autoignição do papel comum usado nos livros. Curioso, não é?..
Universo original de Mochofino.- Ano II
domingo, julho 12, 2026
Ter pano para mangas
Ter pano para mangas
ou quando um ministro da educação corre atrás do prejuízo porque o sistema o obriga a isso.
Há uma explicação popular, mas frágil, que tenta ligar a expressão aos séculos XVI–XVIII, quando as mangas das roupas eram longas e luxuosas, mas aquelas eram feitas separadamente e até compradas já prontas.
A origem mais consistente é artesanal, ligada ao século XIX.
Independentemente da sua origem, de forma mais ou menos recorrente a questão dos exames nacionais regressa à ribalta e dia após dia, desmentido após desmentido, aqui temos pano para mangas. E como não falta a criatividade, agora até surge uma nova dimensão: a possibilidade de indemnização às famílias!
Fica por demais evidente a conceção de um sistema de ensino que tem no exame nacional o seu paradigma! Fraco padrão.
É fraco porque reduz o ensino a uma métrica.
É fraco porque não avalia competências.
É fraco porque cria dependência estrutural.
Desligar os objetivos do ensino secundário do imperativo que é a nota de acesso ao ensino superior impõe-se e é urgente. O momento é de mudanças e as roturas são o tempo certo para decisões ousadas. Esta posição não é pacífica, mas não há razões fortes que a contradigam.
Carl Rogers assumia não ser desejável que um curso terminasse num exame baseado em livros mais ou menos ditados por um professor que desempenha o papel que lhe é atribuído por costume e tradição e que alguns teimam em perpetuar.
Também é verdade que alguns alunos e outros na comunidade educativa, desejam que os professores lhes proporcionem um pedaço de mercadoria intelectual tratada, de modo a ser memorizada e a ser devolvida em exame. É uma opção legítima.
O simples reconhecimento de factos tem o seu valor, é verdade, mas é pouco, muito pouco! As aprendizagens têm de promover mudanças, alterações significativas. O papel do professor é proporcionar os meios aos seus alunos de modo que possam resolver problemas.
Mochofino está de férias, mas não resistiu. Pousado no seu galho habitual e ao ver a confusão instalada, lembra uma exortação antiga — não sejam um vagão de munições; sejam uma espingarda.
A imagem não nasce da exortação, mas do professor de história que Rogers cita — um homem moldado pela Primeira Guerra Mundial, para quem os factos eram munições e o conhecimento só valia quando disparado.
Pois bem, enquanto não se romper este paradigma, haverá sempre pano para mangas.
segunda-feira, julho 06, 2026
Quem espera sempre alcança
Mas
há dias em que a atitude das pessoas parece provar o contrário: preferem lavar
as mãos como Pilatos, fugir e evitar o que lhes toca. Em vez de enfrentarem
os problemas e se responsabilizarem, agem como se nada tivesse a ver com elas e
afastam‑se.
Pouco
lhes importa o que pode acontecer aos outros; não poucas vezes apelam a um lado mais
cristão e incitam os
demais a fazer bem, sem olhar a quem, como se a bondade fosse um gesto
automático, desligado
da responsabilidade de olhar verdadeiramente o outro.
Por
vezes cometem verdadeiras loucuras — mas todos sabemos que loucuras não
remedeiam loucuras, e que a pressa de decidir raramente conduz aos melhores
resultados, pois depressa e bem, não há quem. À mesa do café, ah… aí são
todos sábios. Cada um com a sua verdade, porque cada cabeça sua sentença.
Defendem
ideias apenas porque sim, ou porque gostam de servir, ainda que, muito
frequentemente, quanto mais se serve, menos se vale.
Há
também quem esconda as suas verdadeiras intenções: mostram o pão, mas
escondem a pedra. E se, por alguma razão, lhes é dada a oportunidade de
terem algum poder — mesmo que seja pouco ou por pouco tempo — rapidamente o
carácter se revela, e o provérbio ganha credibilidade: Põe-lhe uma vara na
mão e conhecerás o vilão.
Outros
limitam‑se a seguir sem pensar, porque ovelhas bobas, para onde vai uma vão
todas. E há os que fogem quando o momento aperta, porque adeusinho é
sempre mais docinho. E os que só percebem a gravidade das coisas quando o
trabalho difícil chega e a porca finalmente torce o rabo.
Mas
não podemos esquecer os que, em desespero, fazem o que for preciso para manter
o lugar — não hesitam, pois tal como o diabo, quando se viu
desesperado, meteu‑se moleiro. Também os que explodem por tudo e por nada
aqui merecem uma palavra, porque ferver em pouca água é a forma mais
rápida de parecer forte.
No fim, tudo isto revela o que sempre soubemos: a condição humana é frágil e contraditória, capaz de gestos nobres e de fugas vergonhosas. Mochofino sabe que os provérbios sobrevivem porque mostram caminhos, desvios e possibilidades de escolha. E, com postura, com silêncio ou com um leve bater de asas, lembra‑nos que a escolha, mesmo pequena, é sempre nossa.
Universo original de Mochofino.
sexta-feira, julho 03, 2026
domingo, junho 28, 2026
Ferver em pouca água
De vez em quando, há tardes em que o céu se cobre de nuvens como quem faz uma birra e uma ou outra trovoada aparece sem avisar. São, ainda, de esperar noites frescas.
Junho vive dividido — quer ser verão, mas ainda sonha primavera. É um mês que ainda está a aprender a ser verão, que só chegará na última semana.
Talvez por isso junho nos lembre a juventude.
A rebeldia juvenil é ensaio: limites testados, erros que ainda não pesam. O corpo e a mente descobrem até onde podem ir. Tal como junho, estão a crescer.
O que inquieta não é um jovem ferver em pouca água; o preocupante é um adulto continuar em ebulição como se tivesse quinze anos. A idade adulta traz consigo a expectativa de mais contenção, mais memória.
Para educar uma criança é preciso toda uma aldeia — um clima estável, um calor que aqueça sem queimar. Todo o tempo do mundo, todo o conhecimento acumulado, toda a paciência que só a vida ensina.
Quem chega à idade adulta sem ter aprendido a controlar o seu “calor interno” é alguém que não ouviu a aldeia, ou não a teve, ou não quis aprender com ela.
No sentido vulgar, ferver em pouca água é perder a calma por quase nada. Na cozinha, é arte de conter o excesso; na vida, é sinal de quem ainda não aprendeu a esperar.
Como diria Mochofino, a juventude ferve depressa porque está a aprender a controlar o lume.
Junho também, no seu lume ainda incerto.
O verão chega quando o lume estabiliza.
Universo original de Mochofino.
domingo, junho 21, 2026
Roma e Pavia não se fizeram num dia
Portugal foi fustigado, num curto intervalo de tempo, por uma sucessão de depressões atlânticas que deixaram a zona centro em ruína. A tempestade Kristin foi a mais violenta: arrancou árvores pela raiz, cortou-as ao meio, destruiu estradas, derrubou postes, arrasou casas e deixou a paisagem irreconhecível. A dimensão dos prejuízos tornou evidente que a recuperação não se mede em semanas. Levará meses, anos — e, no caso da floresta, décadas.
Há dias passei pela região afetada. Muitas árvores continuam quebradas, inclinadas como testemunhas de algo que passou depressa demais. A paisagem é desoladora, marcada pelo que desapareceu e pelo que ainda não regressou.
Foi nesse momento que surgiu na memória o provérbio e a curiosidade de o revisitar. “Roma e Pavia não se fizeram num dia” fala de tempo, persistência e construção lenta. A tempestade mostra o contrário: destruição súbita, violência, fragilidade das coisas feitas pelo homem.
A tempestade derruba em minutos o que levou anos a erguer. O provérbio lembra que reconstruir leva tempo.
A máxima nasce na Idade Média francesa e dizia apenas que "Roma não se fez num dia". A versão portuguesa acrescentou Pavia, e é geralmente aceite que o fez por necessidade rítmica com a palavra dia.
Uma leitura apressada tende a diminuir a importância de Pavia perante Roma. Será verdade se pensarmos apenas em imponência, grandiosidade ou civilização antiga. Mas, cultural e historicamente, Pavia não é de desprezar: foi capital da Lombardia, centro universitário de prestígio e palco de episódios decisivos da história europeia.
A rima pode ter guiado a forma, mas não apaga o peso da cidade.
Mochofino diria que, entre a rapidez do que cai e a lentidão do que se levanta, ficamos nós — a aprender a ser pacientes, a aceitar que a obra humana é sempre mais frágil do que gostaríamos e que tudo leva tempo a fazer.
Universo original de Mochofino.
domingo, junho 14, 2026
Junho, dorme-se sobre o punho
O verão aproxima-se, e o calor intenso desta Cova da Beira começa a lembrar-nos, de forma brusca, que o tempo quente está a chegar.
Há dias em que o sol não aquece: queima. E o corpo, sensato, começa a abrandar - não por preguiça, mas por instinto.
Resolvemos procurar um provérbio que fosse capaz de traduzir um sentimento de rendição à força do calor. Ao calor que dobra a nossa vontade. Encontrámos este: “Junho, dorme se sobre o punho.”
Não procurámos mais. A imagem formou-se de imediato: alguém sentado, dobrado sobre si, a cabeça pousada no braço, a pedir ao mundo cinco minutos de tréguas. Não para pensar, para não cair.
A imagem era tão nítida que fomos procurar um quadro que a confirmasse. Encontrámos Le Réveil du Faucheur, de Léon Augustin Lhermitte: um ceifeiro exausto, apanhado no instante em que o corpo decide por ele.
Não podemos mostrar o original; Mochofino fez a sua versão e, claro, entrou no quadro — a versão com o calor da Cova da Beira, porque quem aqui vive sabe o que é dobrar‑se à força do calor.
E assim voltamos ao princípio: o verão chegará sem pedir licença e o corpo abranda. Temperaturas altas não pedem feitos; pedem sombra, pedem pausa. Não por preguiça, mas por economia de forças.
O provérbio não engana: em junho, quando o calor manda, o corpo obedece. Sesta não é luxo — é estratégia.
Obs.: Vale a pena ver o quadro original. E vale o caminho — Mochofino aprecia leitores que se mexem.
sábado, junho 06, 2026
Adeusinho que é mais docinho / Adeusinho, que é mais docinho
É assim em tantas discussões ambientais: queremos energia limpa, queremos soluções rápidas, mas não paramos para perceber o que está por trás delas.
E talvez seja esse o problema: falta‑nos uma vírgula, a pausa mínima que muda o sentido de uma frase. O momento em que se evita o impulso e se escolhe a reflexão. E isto não é novo.
domingo, maio 31, 2026
Quanto mais se serve, menos se vale
A leitura do provérbio ‘Quanto mais se serve, menos se vale’ coincidiu com um episódio quase rocambolesco protagonizado por duas figuras públicas. A coincidência é, por si só, reveladora.
Sobre a utilização da base das Lajes, dizem coisas diferentes — e até contraditórias. Um garante que houve autorização sem pedido. O outro afirma que o pedido só surgiu depois da missão estar concretizada.
Esta situação caricata e preocupante fez-me recuar ao primeiro texto que publiquei no blogue —o que me levou a iniciar este caminho na tentativa de perceber o que se esconde por detrás de cada provérbio.
Recordo “Não sei qual o momento, muito menos o contexto, em que pela primeira vez ouvi: A tudo Nosso Senhor nos leva, se a saúde não nos faltar".
Mochofino, sempre atento ao que se passa, já não se espanta. Agita-se e incomoda-se com a repetição deste velho padrão humano, que tende a repetir-se. É apenas mais um capítulo da eterna história entre quem serve e quem é servido.
O episódio interessa pelo reflexo que produz e mostra, de forma crua, que quem serve demasiado acaba tratado como quem não precisa de saber. Quando alguém se habitua a servir, o outro habitua-se a não explicar.
Quem serve acredita que faz o que deve ser feito — e que isso será reconhecido. O que não espera é que quem é servido tome o gesto como natural. É precisamente aqui que o provérbio captura crueldade da realidade, dar tudo e ainda assim valer menos.
Importa perceber que é possível servir, mas sem se apagar.
Servir é nobre. Mas servir sem medida leva o outro a não medir o valor do que recebe.
sábado, maio 23, 2026
Maio que não der trovoada, não dá coisa estimada.
E não admira: basta uma chuvada para alguns anunciarem o fim do mundo agrícola e outros agradecerem aos céus como se tivessem recebido uma bênção rara.
Todos sabem que não é possível agradar a gregos e a troianos, não se pode ter sol na eira e chuva no nabal.
O provérbio diz: “Maio que não der trovoada, não dá coisa estimada.” Perguntem aos produtores de cereja. A resposta será: trovoada, não.
Pois é, o trigo agradece a trovoada, a cereja teme-a; onde o cereal vê promessa, o fruto vê ameaça.
O ditado nasce da observação de um Portugal cerealífero: a chuva e o calor de maio favoreciam a produção e anunciavam um ano de pão. Nessa paisagem, a trovoada era sinónimo de segurança alimentar.
Convém, porém, distinguir: trovoada sem granizo pode trazer humidade e calor úteis; granizo ou chuva intensa trazem queda de fruta e doenças fúngicas — prejuízos imediatos para pomares de alto valor, como os de cereja.
As culturas mudaram e o mapa rural alterou-se. Por isso, a leitura dos provérbios não pode ficar reduzida à citação: precisa de enquadramento histórico, económico e climático.
Entender o que o ditado popular dizia e o que já não diz, exige contextualização; perceber o que ainda pode dizer exige investigação e recolha de informação.
Manter as expressões populares é um ato de respeito pela cultura; interpretá-las com rigor é um dever intelectual. Só assim o provérbio passa a ser uma chave para compreender como mudámos e o que, do saber antigo, ainda nos serve.
Maio dá refrões, rimas e contradições. Este provérbio é um convite para ver e ler a tradição com olhos críticos.
sábado, maio 16, 2026
Em maio, come as cerejas ao borralho
Universo original de Mochofino
domingo, maio 10, 2026
Meter-se numa camisa de onze varas
domingo, maio 03, 2026
Mãe velha e camisa rota não desonram
quinta-feira, abril 30, 2026
Trabalho é meio de vida e não de morte
Mochofino detém-se no tema que é caro a ambos: o trabalho.
Não é difícil encontrar um ditado que inclua a palavra.
Todos a associamos a atividades, físicas ou intelectuais, que permitem alcançar objetivos, produzir bens ou prestar serviços.
O trabalho dignifica. E a sua dignidade assenta em pilares fundamentais: liberdade na escolha, direitos, proteção social e diálogo.
Mas a atenção recaiu sobre: Trabalho é meio de vida e não de morte.
Desde logo porque envolve dois vocábulos antónimos ligados pela palavra trabalho. Longe estávamos de imaginar onde nos levou a origem da palavra.
A palavra surpreende. Vem de um instrumento de tortura, composto por três varas ou paus, o tripalium. E isso muda a forma como a lemos. Tripaliare era um verbo que significava torturar no tripalium. Daí evoluiu para o francês travailler e, mais tarde, para o português trabalhar.
Com o tempo, o sentido evoluiu para representar um esforço muito intenso e, mais tarde, para exercer um ofício. Mas o sentido inicial era literal: trabalhava quem era castigado. Estava associado à punição ou à condição (escravos), provocava dor extrema e, não poucas vezes, a morte.
O provérbio afirma que o trabalho existe para sustentar a vida, não para a destruir.
Coloca a vida humana acima da produtividade.
Confronta jornadas excessivas, precariedade, exploração e a normalização da dor no trabalho.
Lembra que o trabalho é um meio, nunca um fim.
Deve elevar a dignidade, não sacrificá‑la.
Mochofino apreendeu a profundidade do provérbio e o seu alerta: meio de vida, não de morte.
sábado, abril 25, 2026
As portas que Abril abriu
Universo original de Mochofino
domingo, abril 19, 2026
Mostram o pão e escondem a pedra
segunda-feira, abril 13, 2026
Põe-lhe uma vara na mão e conhecerás o vilão
Como sempre é possível interpretações diversas para os provérbios, algumas chegam a ser antagónicas!
A expressão “vara na mão” tem um significado ligado à ideia de autoridade, poder de correção ou capacidade de impor disciplina.
Mas, associada ao exercício do poder (ainda que lida como metáfora para a autoridade) e ao recurso à palavra vilão, faz emergir a ideia de autoritarismo.
A leitura mais comum transporta-nos para a ideia de que a verdadeira natureza das pessoas somente será conhecida quando detêm o poder. Esta é a interpretação moderna e é um desvio tardio: nasce da desconfiança do poder.
Ora, do ponto de vista cultural, a vara é medida e critério, o vilão é quem se afasta da medida e quando há vara, o desvio torna se visível. O vilão é revelado.
Por isso Mochofino ousa afirmar que o provérbio não diz que a vara cria o vilão e não diz que a vara identifica o vilão. O que o provérbio diz é que a vara revela o vilão!
Olhando para o presente, é natural que as pessoas façam uma leitura moderna projetada sobre o provérbio identificando o modo de atuar de decisores políticos que, com o poder que a vara lhes concede, se tornam ou se revelam como verdadeiros vilões.
Numa conceção crítica do mundo atual, quem recebe a vara pode tornar se vilão, pois o poder corrompe, mas esta é uma visão moderna, marcada pela ironia.
Universo original de Mochofino
domingo, abril 05, 2026
Loucuras não remedeiam loucuras
domingo, março 29, 2026
Lavar as mãos como Pilatos
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Autor - José Pina
Universo original de Mochofino


























