sábado, fevereiro 21, 2026

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O barato sai caro.

   

O barato sai caro. Mas será sempre assim? Estaremos perante uma afirmação absoluta e verdadeira?
Esta expressão, numa leitura muito imediata, traduz a ideia de que escolher um produto ou um serviço pelo preço mais baixo pode resultar num gasto maior a longo prazo.
Acreditamos que esta leitura seja apoiada na convicção de que se descuidou a qualidade!
Mas será que o provérbio conclui que todo o produto ou serviço barato é de má qualidade e aceita como verdadeira a conclusão contrária, isto é, todo o produto ou serviço de qualidade tem de ser, obrigatoriamente, caro?
A dúvida é aceitável, mas pensamos que não haverá grande contestação em aceitar a ideia de que o provérbio alerta para a necessidade de pensar muito bem quando se toma a decisão de comprar, adquirir ou executar um determinado projeto.
O ditado alerta ainda contra o imediatismo, o pensamento a curto prazo, sugerindo que o custo final deve ser sempre considerado antes da decisão de comprar ou realizar e faz todo o sentido num momento de grande calamidade, as cheias que atingem grandes áreas do nosso país e concretamente o Baixo Mondego.
Durante séculos a água do Mondego, bem perto da foz, entrava, fertilizava e depois recuava. As aldeias erguiam‑se nas cotas mais altas, mais secas.
Mais tarde as casas foram sendo construídas onde o rio naturalmente se espraiava e, com o propósito de melhorar, começámos a construir onde o rio descansava. Chamámos a isso desenvolvimento, progresso, visão.
Os diques que foram construídos criaram a ilusão de segurança e décadas sem cheias apagaram a memória. Mas o sistema envelheceu, o clima mudou… e, na verdade, o leito do rio não desapareceu.
Quando a intervenção de manutenção foi sendo mais demorada, a água fez o que sempre faz: voltou e recuperou o que sempre lhe pertenceu.
O barato vai sair muito caro!

 Universo original de Mochofino

domingo, fevereiro 15, 2026

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Pelo Entrudo, come-se tudo.

 
Carnaval, esta palavra que cruza fronteiras, parece ter origem em carne levare: “adeus à carne”. É um termo que precede, e muito, o cristianismo. Carnaval é desfile, é máscara, é folia…
Entrudo, palavra bem portuguesa, com raízes no mundo rural, vem do latim introitus: “entrada”.

Entrada em quê? Na Quaresma, tempo de jejum e, talvez por isso, fizesse algum sentido que se comesse o máximo de forma excessiva e se bebesse de forma equivalente, pois era o início de um período de privação. 
Entrudo e Carnaval não são propriamente a mesma coisa! De comum têm o facto de ser a entrada na Quaresma, mas o Carnaval está fortemente associado à extravagância, ao desregramento, aos rituais exagerados, mesmo de inversão social.
Já o Entrudo é comida, é corpo, é, também, excesso: “Pelo Entrudo, come-se tudo”.
Mas, se no Entrudo se come tudo e no Carnaval ninguém leva a mal, na Quaresma exigia-se contenção, recolhimento, jejum,… e fica a dúvida ou talvez não, do porquê da igreja católica ser um pouco mais complacente e abrir exceções nesse período.
Referimo-nos à possibilidade de se poder festejar o Baile da Rosa, no Domingo Laetare, o único tempo em que a liturgia autorizava um momento de alegria e de quebrar a obrigação de não comer carne à sexta-feira, desde que se pagasse a respetiva bula. 
Será que a Igreja permitia um pequeno alívio na austeridade para que os fiéis não desistissem do caminho da penitência?
Será que o aumento dos fundos ajudava a alma?
Quanto à bula, a justificação teológica assentava na ideia de que não comer carne era um sacrifício e, como tal, podia ser substituído por outro sacrifício — o pagamento.
A bula passou a ser entendida como um alçapão moral e o Papa Leão X consolidou e universalizou esse tipo de indulgência, mas o resultado não foi o melhor. O que aconteceu a seguir… bem, foi tão barulhento que ainda hoje ecoa nas paredes da Igreja.

  
Universo original de Mochofino



domingo, fevereiro 08, 2026

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Se a Senhora das Candeias estiver a rir, está o inverno para vir; se estiver a chorar, o inverno está a acabar.

   

No mundo rural dos nossos avós, o inverno lia-se pelo céu. O dia 2 de fevereiro sempre foi um desses dias em que o céu falava: Se nesse dia estivesse bom tempo (Rir → dia de sol), significava que os dias invernosos iriam continuar; se estivesse mau tempo (Chorar → dia de chuva), então os dias invernosos estavam prestes a acabar, o inverno daria lugar brevemente à primavera.

Será que ainda é assim?

Se há algo que diferencia este de outros provérbios é a especificidade da data: 2 de fevereiro. Encontramos uma justificação, este dia coincide com a data em que se celebra a Senhora das Candeias [luz] e, no calendário rural, marca o meio do inverno, os dias começam a ganhar tempo às noites.

A Festa das Candeias celebra a luz. Neste dia, era comum nas aldeias levar-se para casa a vela usada na procissão e guardá-la atrás da porta. Mais tarde, a vela era acesa durante a ocorrência de trovoadas, mas também para proteger os animais ou afastar as doenças, pois acreditava-se que a luz vinda de uma vela benzida protegia do mal, do frio, da fome…

Fica muito claro a enorme sabedoria de um povo que é capaz de ligar, com recurso à mesma palavra acontecimentos tão distintos, pois ainda que a luz seja o elo comum, num caso estamos perante um fragmento litúrgico levado para casa, uma luz que revela, e no outro estamos a falar de uma luz física, solar, num ciclo repetível de estações do ano.

Pois bem, considerando o objetivo do blogue, talvez valha a pena sermos coríntios [na perspetiva de S. Paulo] e aceitar que vemos apenas o que a luz consente. É o momento de nos focarmos no básico e darmos muita atenção à observação, ao que o céu revela e deixar para outros a interpretação do conceito de luz primordial, o primeiro ato de criação divina que antecedeu o sol e os astros, criados no quarto dia.

A publicação deste provérbio acontece alguns dias depois do dia 2 de fevereiro, pois bem, teremos a oportunidade de avaliar daqui a algumas semanas do quanto o presságio esteve próximo da realidade, mas acertar ou falhar é o menos, o essencial é continuar a levantar os olhos e deste modo homenagear os nossos antepassados e a sua sabedoria criada na experiência de vida.

Universo original de Mochofino

 

domingo, fevereiro 01, 2026

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Ovelhas bobas, para onde vai uma vão todas

   


Se interpretado sem grandes expectativas, este provérbio é de fácil interpretação pois existe uma leitura muito direta entre o que nos apresenta textualmente e o que pretende transmitir. 

Naturalmente a qualificação não é propriamente simpática, mas todos nós temos a ideia de que as ovelhas tendem a seguir uma delas, movimentando-se em grupo, de forma automática.

Mas será esta evidência razão suficiente para se transformar em provérbio, quando sabemos que os ditos populares têm sempre uma intenção mais ou menos escondida, uma segunda interpretação?

A observação direta do comportamento das ovelhas durante séculos revelou que elas se seguem umas às outras como um todo, raramente se afastam umas das outras e tendem a entrar em pânico quando ficam isoladas, vocalizando no seu balir.

O provérbio tem origem na observação do fenómeno pois mover-se em grupo garante mais segurança contra o ataque de predadores, reduz a decisão individual, a vigilância constante e a ansiedade. O rebanho permite que cada ovelha, cada indivíduo, delegue parte da atenção ao grupo, mas limita a reflexão e a autocrítica.

As comunidades perceberam que as multidões tendem a agir como um todo ao procurarem segurança no coletivo. O comportamento humano, em massa, parece-se com o das ovelhas.

O provérbio nasce da analogia, critica a falta de pensamento próprio e alerta contra o conformismo. Valoriza a autonomia e denuncia a manipulação coletiva. Afinal o foco não são as ovelhas — somos nós.

Curiosidade:

A palavra alcateia tem origem árabe e no Dicionário Houaiss, lê-se: «ár. al-qaṭīḤ ‘manada, rebanho’, der. do v. qaṭaḤ ‘dividir, separar parte do todo’.» Originalmente alcateia: “rebanho, bando, grupo separado”, tem exatamente o mesmo campo semântico de rebanho.

As duas palavras significam originalmente “grupo de animais reunidos”. Alcateia é, na origem, um tipo de rebanho.

Universo original de Mochofino

Autor - José Pina

Autor - José Pina
Universo original de Mochofino