Universo original de Mochofino
Universo original de Mochofino
No mundo rural dos nossos avós, o inverno lia-se pelo céu. O dia 2 de fevereiro sempre foi um desses dias em que o céu falava: Se nesse dia estivesse bom tempo (Rir → dia de sol), significava que os dias invernosos iriam continuar; se estivesse mau tempo (Chorar → dia de chuva), então os dias invernosos estavam prestes a acabar, o inverno daria lugar brevemente à primavera.
Será que ainda é assim?
Se há algo que diferencia este de outros provérbios é a especificidade da data: 2 de fevereiro. Encontramos uma justificação, este dia coincide com a data em que se celebra a Senhora das Candeias [luz] e, no calendário rural, marca o meio do inverno, os dias começam a ganhar tempo às noites.
A Festa das Candeias celebra a luz. Neste dia, era comum nas aldeias levar-se para casa a vela usada na procissão e guardá-la atrás da porta. Mais tarde, a vela era acesa durante a ocorrência de trovoadas, mas também para proteger os animais ou afastar as doenças, pois acreditava-se que a luz vinda de uma vela benzida protegia do mal, do frio, da fome…
Fica muito claro a enorme sabedoria de um povo que é capaz de ligar, com recurso à mesma palavra acontecimentos tão distintos, pois ainda que a luz seja o elo comum, num caso estamos perante um fragmento litúrgico levado para casa, uma luz que revela, e no outro estamos a falar de uma luz física, solar, num ciclo repetível de estações do ano.
Pois bem, considerando o objetivo do blogue, talvez valha a pena sermos coríntios [na perspetiva de S. Paulo] e aceitar que vemos apenas o que a luz consente. É o momento de nos focarmos no básico e darmos muita atenção à observação, ao que o céu revela e deixar para outros a interpretação do conceito de luz primordial, o primeiro ato de criação divina que antecedeu o sol e os astros, criados no quarto dia.
A publicação deste provérbio acontece alguns dias depois do dia 2 de fevereiro, pois bem, teremos a oportunidade de avaliar daqui a algumas semanas do quanto o presságio esteve próximo da realidade, mas acertar ou falhar é o menos, o essencial é continuar a levantar os olhos e deste modo homenagear os nossos antepassados e a sua sabedoria criada na experiência de vida.
Naturalmente a qualificação não é propriamente simpática, mas todos nós temos a ideia de que as ovelhas tendem a seguir uma delas, movimentando-se em grupo, de forma automática.
Mas será esta evidência razão suficiente para se transformar em provérbio, quando sabemos que os ditos populares têm sempre uma intenção mais ou menos escondida, uma segunda interpretação?
A observação direta do comportamento das ovelhas durante séculos revelou que elas se seguem umas às outras como um todo, raramente se afastam umas das outras e tendem a entrar em pânico quando ficam isoladas, vocalizando no seu balir.
O provérbio tem origem na observação do fenómeno pois mover-se em grupo garante mais segurança contra o ataque de predadores, reduz a decisão individual, a vigilância constante e a ansiedade. O rebanho permite que cada ovelha, cada indivíduo, delegue parte da atenção ao grupo, mas limita a reflexão e a autocrítica.
As comunidades perceberam que as multidões tendem a agir como um todo ao procurarem segurança no coletivo. O comportamento humano, em massa, parece-se com o das ovelhas.
O provérbio nasce da analogia, critica a falta de pensamento próprio e alerta contra o conformismo. Valoriza a autonomia e denuncia a manipulação coletiva. Afinal o foco não são as ovelhas — somos nós.
Curiosidade:
A palavra alcateia tem origem árabe e no Dicionário Houaiss, lê-se: «ár. al-qaṭīḤ ‘manada, rebanho’, der. do v. qaṭaḤ ‘dividir, separar parte do todo’.» Originalmente alcateia: “rebanho, bando, grupo separado”, tem exatamente o mesmo campo semântico de rebanho.
As duas palavras significam originalmente “grupo de animais reunidos”. Alcateia é, na origem, um tipo de rebanho.