segunda-feira, outubro 26, 2026

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Alecrim, alecrim aos molhos...

 
O alecrim e a manjerona eram frequentemente associados ao amor, ao namoro e aos festejos populares. Não é de estranhar, pois, que o alecrim estivesse presente nos cantares populares com origens tradicionais portuguesas e muitos reconhecerão os versos:
Alecrim, alecrim aos molhos
por causa de ti
choram os meus olhos
ai meu amor…
Menos conhecidos serão, talvez, os versos:
O rouxinol quando canta
 Bota o pé no alecrim;
 Os olhos à manjerona,
 Dá combate ao jardim…
que encontramos no “Cancioneiro Popular”, coligido por Teóphilo Braga, onde as flores, algumas vezes, surgem como metáforas de raparigas.

Das cantigas populares para a observação da natureza vai um pequeno passo. Nesta época do ano, uma visita ao parque verde da cidade proporciona um contacto direto com esta planta e convida-nos a apreciá-la. Foi o que fiz e, mais tarde, tentei reproduzir em aguarela um pequeno ramo.

Para além da sua presença na cultura popular, o alecrim é valorizado há séculos pelas suas múltiplas utilizações que vão muito além das associações amorosas. Culinárias, medicinais, cosméticas… são apenas exemplos do seu uso desde a antiguidade.

Remédios caseiros eram vulgares e o óleo de alecrim é um exemplo dessa utilização, sendo apreciado pelas suas propriedades antioxidantes e aromáticas. Muitos recordarão a famosa garrafa de álcool de alecrim, a que os seus avós recorriam para massajar aquela dor incómoda nas pernas ou nos pés ou aquela nódoa negra que aparecia depois de uma pancada ou queda.

Mochofino diria que o alecrim é uma planta que merece estar em todas as casas, que mais não seja, pelo seu agradável aroma! 



 

sábado, outubro 17, 2026

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A Física do pôr do Sol – O segredo das cores - 2ª parte

   

Na 1.ª parte procurámos compreender a natureza da luz, uma das mais fascinantes aventuras da Física. Vimos que a luz é uma forma de energia que se propaga sob a forma de radiação eletromagnética e que pode manifestar simultaneamente propriedades ondulatórias e corpusculares.

Vamos agora tentar compreender como se formam os esplendorosos pores do Sol.

No interior do Sol ocorrem reações de fusão nuclear, convertendo hidrogénio em hélio e libertando enormes quantidades de energia sob a forma de radiação eletromagnética. Essa energia acaba por chegar à superfície solar e é emitida sob a forma de fotões, as partículas da luz, associados a diferentes frequências e comprimentos de onda.

De toda a radiação emitida pelo Sol, apenas uma pequena fração pertence à região visível do espectro eletromagnético, referimo-nos a ela como luz solar e é percecionada pelos nossos olhos como luz branca, resultante da combinação de todas as cores do espectro visível (cores do arco-íris). É esta luz que está na origem dos magníficos pores-do-Sol.

Quando a luz atravessa a atmosfera terrestre, as diferentes cores não são afetadas da mesma forma. As radiações de menor comprimento de onda, como o azul e o violeta, são mais fortemente dispersadas pelas moléculas dos gases presentes no ar, num fenómeno conhecido como dispersão de Rayleigh.

Quando o Sol está mais alto no céu, a luz percorre uma camada relativamente fina da atmosfera. As moléculas dos gases da atmosfera dispersam mais intensamente a luz azul do que a vermelha. Embora a luz violeta seja dispersada ainda mais intensamente do que a azul, os nossos olhos são menos sensíveis a essa cor. Por isso, o céu apresenta-se com aquela cor azul característica.

Ao pôr do sol, a luz tem de percorrer um trajeto mais longo através da atmosfera e grande parte da luz azul e violeta é dispersada para fora da linha de visão. Permanecem predominantemente os comprimentos de onda mais longos, correspondentes aos tons amarelos, laranja e vermelhos. 

Além da dispersão de Rayleigh, também entram em jogo partículas de maiores dimensões, como poeiras dos desertos, fumo de incêndios e gotículas de água. Estas partículas provocam a designada dispersão de Mie, contribuindo para intensificar os tons vermelhos e alaranjados.

Quando observamos um magnífico pôr do Sol, estamos a assistir ao resultado de vários fenómenos físicos que envolvem a natureza da luz e a composição da atmosfera. A beleza que contemplamos é, afinal, a Física em ação.

Universo original de Mochofino.- Ano II


sexta-feira, outubro 16, 2026

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A Física do pôr do Sol - A natureza da luz [1ª parte]

   

Quantos de nós não ficámos já maravilhados ao observar as vibrantes cores do por de Sol? Mas, quantos de nós procurámos saber qual a física que explica a enorme variedade de cores que podemos observar?

Vamos tentar responder, de forma simples e contextualizada.

Comecemos por perceber o que é a luz, qual a sua natureza.

Explicar o que é a luz e qual a sua natureza, é um problema que dividiu opiniões e gerou enormes discussões durante mais de dois milénios. No entanto, o debate científico concentra-se entre os séculos XVII e XX.

No século XVII surge uma grande controvérsia entre Newton, que defendia que a luz era constituída por pequenas partículas emitidas pelas fontes luminosas e Huygens que propunha que a luz era uma onda que se propagava através do hipotético “éter”.

A explicação avançada por Newton foi a mais aceite, muito devido ao enorme prestígio que recolhia entre a comunidade científica. Mas no início do século XIX a teoria ondulatória ganhou um forte apoio quando Young demonstrou experimentalmente que a luz sofria interferência ao atravessar duas fendas muito estreitas.

Se a luz fosse constituída apenas por partículas, esperar-se-iam duas bandas luminosas. No entanto, surgiu uma sucessão de faixas claras e escuras.

Algumas décadas mais tarde Maxwell demonstrou teoricamente que a luz corresponde a uma onda eletromagnética, a questão parecia resolvida: a luz era uma onda. 

No início do século XX surgem alguns fenómenos que a teoria ondulatória não consegue explicar. Planck introduz o conceito de quantum de energia e Einstein explica o efeito fotoelétrico admitindo que a energia está quantizada, desenvolvendo a ideia proposta por Planck. A luz revela assim uma componente corpuscular, descrita através dos fotões.

Nos anos 20, com o desenvolvimento da Mecânica Quântica por Heisenberg, Schrödinger e outros físicos, consolidou-se a ideia de que a luz manifesta propriedades ondulatórias e corpusculares. Com De Broglie surgiu a ideia de que esta dualidade não é exclusiva da luz: toda a matéria possui igualmente natureza dual. Esta dualidade onda-partícula constitui um dos pilares da Mecânica Quântica.

Universo original de Mochofino.- Ano II


quarta-feira, outubro 07, 2026

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Falar pelos cotovelos

 
Este provérbio levou-me a recuperar uma figura que já incluí nos primeiros posts de Mochofino: o "Papagaio Tagarela" - pois, muitas vezes, quem fala demais tenta compensar a falta de argumentos sólidos com o excesso de som e de gestos.

Habituado a ser surpreendido pela cultura e pela sabedoria popular, tentei perceber a sua origem e o porquê de uma ligação entre o ato de falar e os membros superiores, em particular os cotovelos.

Pelo que apurei, parece fazer sentido a presença dos cotovelos, pois “falar pelos cotovelos” diz‑se de uma pessoa muito faladora, acompanhando o discurso com gestos exuberantes dos braços.
A expressão popular ganha lógica, já que os cotovelos são parte determinante do gesto.

No entanto, promover os cotovelos a instrumento de fala só por ironia: os cotovelos não falam, nem são parte do corpo associada à produção de som.

Sarcasticamente seria interessante que o corpo tivesse um mecanismo de alerta que, à semelhança do que acontecia no Planeta dos Homens, naquela aula de história clássica protagonizada por Agildo Ribeiro, onde havia uma “múmia paralítica” que fazia soar uma campainha sempre que a aula evoluía para devaneios — e, em particular, quando se lembrava de Bruna Lombardi — atuasse quando os gestos se tornam descabidos.

Sim, porque um sinal de alerta não seria descabido: por vezes os gestos tornam‑se tão exagerados que ultrapassam a fronteira da privacidade de uma conversa, transformando‑se num espetáculo público.
Universo original de Mochofino.- Ano II




sábado, setembro 26, 2026

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A arrogância vem antes da perda

 
A palavra arrogância tem ganho algum destaque e, à semelhança de tantas outras, sofreu uma mudança semântica: da ideia de “exige para si” passou a “atribuir a si” qualidades excessivas, sem fundamento que as sustente.
Hoje, arrogância está associada à altivez, à prepotência e ao desprezo pelos outros.
Vem isto a propósito do provérbio A arrogância vem antes da queda — e seria fácil para Mochofino, quase tentador, ligá‑la às declarações com que os políticos se brindam entre si.
Não vamos por aí.

Esta formulação encontra paralelo em A soberba precede a ruína, 16:18, do Livro dos Provérbios, e é a partir dela que estabelecemos uma ligação entre um dispositivo físico — o copo de Pitágoras — e o rei da Frígia, Tântalo, filho de Zeus e de uma ninfa, Plota.
A relação entre o provérbio bíblico e o copo de Pitágoras evidencia de forma clara que o excesso conduz à perda. Muito mais interessante.

Tântalo era um mortal admitido à mesa dos deuses e arriscava roubar néctar e ambrosia, as duas substâncias de que se alimentavam os deuses, distribuindo‑as depois por outros mortais.
De forma arrogante, ultrapassou todos os limites quando ousou testar a divindade dos deuses, servindo‑lhes a carne do próprio filho que mandou matar e cozinhar.
Descoberto o hediondo crime, como castigo, Tântalo foi condenado a ficar de joelhos (ou em pé) dentro de água, sem poder saciar a sede, pois sempre que se aproximava da água esta escoava completamente.
Quanto ao copo de Pitágoras, o dispositivo é constituído por um vaso que tem no interior um tubo de vidro recurvado com saída no fundo. Deitando água no copo, quando o nível atinge o ponto mais alto da curvatura do tubo, esta escoa‑se para o exterior. Se a água for reposta, o processo repete‑se.
Com base no mito, também é hoje conhecido por vaso de Tântalo.
Universo original de Mochofino.- Ano II

domingo, setembro 20, 2026

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Pedro Hispano - Papa João XXI - 750 anos do seu pontificado

 
Portugal, em setembro de 2026, deveria dar ênfase a um português que foi médico, filósofo, teólogo, matemático, diplomata, intelectual distinto e papa – João XXI – ainda que não exista um João XX.
Conhecido como Pedro Hispano, nasceu em Lisboa [Pedro Julião Rebolo] e é considerado o único papa português.
O seu pontificado foi muito curto [setembro de 1276, a maio de 1277] e caraterizado pela simplicidade. 
João XXI empenhou-se em obter a paz entre as nações em conflito e na tentativa de união entre os cristãos do ocidente e do oriente.
Dante Alighieri, na sua obra maior, a “Divina Comédia”, colocou a sua alma no paraíso, identificando-o como aquele que brilha em doze livros, referência ao número de tratados que escreveu.
Entre as suas imensas obras destacamos “Thesaurus Pauperum” por ser considerada como precursora da medicina preventiva. Nela propõe hábitos e dietas que promovem a conservação da saúde. Foi traduzida para várias línguas e publicada numa centena de edições.
Referenciamos, também, “De Oculi” um tratado de oftalmologia descoberto no séc. XIX com ampla difusão em universidades europeias.
Miguel Ângelo, o grande pintor renascentista, que sofria gravemente de conjuntivite, encontrou alívio num colírio denominado “aquae mirabilis”, receita de Pedro Hispano. Na Biblioteca do Vaticano, existe uma cópia manuscrita com receitas extraídas dessa obra. 
Um homem muito à frente no seu tempo.
Universo original de Mochofino.- Ano II

quarta-feira, setembro 16, 2026

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Bom ozono, mau ozono e Protocolo de Montreal

 

O ozono é um gás cujas moléculas são constituídas por três átomos de elemento oxigénio.

O papel do ozono depende exclusivamente do contexto atmosférico em que se encontra. Por isso, a classificação de “bom” ou “mau” não descreve a molécula, mas sim a função que desempenha. Então, porque surge esta distinção?

A camada de ozono, localizada na atmosfera e em concreto na estratosfera, entre os 20 e os 35 km de altitude, filtra uma parte da radiação ultravioleta [UV-B e UV-C] que atinge a Terra e, deste modo, atua como camada protetora da vida deste nosso planeta azul. Esta camada tem origem na reação química que ocorre entre o oxigénio molecular e a radiação solar.

Bem mais próximo da superfície terrestre, na camada da atmosfera que designamos por troposfera, [até aos 10 km de altitude] também existe ozono que tem origem na reação fotoquímica entre os poluentes urbanos, resultando ele próprio um poluente secundário que causa problemas respiratórios graves, irritação ocular e prejudica quer as florestas, quer colheitas.

Há cerca de quatro décadas identificou-se uma degradação da camada de ozono, provocada entre outros por clorofluorcarbonetos (CFC), gases usados, por exemplo em frigoríficos e em aerossóis, que originam radicais de cloro. Cada átomo de cloro pode destruir dezenas de milhares de moléculas de ozono.

Perante uma ameaça de efeitos devastadores, a comunidade internacional adotou medidas firmes e coordenadas para proteger a saúde humana e o ambiente contra os efeitos negativos que resultam das atividades humanas.

Proibir o uso dessas substâncias e emitir o Protocolo de Montreal - permitindo que a camada de ozono recuperasse de forma gradual – a decisão certa.

16 de setembro, este foi o dia proclamado na Resolução 49/114, adotada na Assembleia Geral da ONU de 23 de janeiro de 1995, para sinalizar a importância de cuidarmos da camada de ozono, este escudo natural da Terra.

Este ano celebra-se o Protocolo de Montreal sob o lema «Ação global para um planeta mais fresco». O Protocolo de Montreal demonstrou que políticas sustentadas na participação universal e no compromisso político, são capazes de produzir resultados.

Mochofino diria: Assim queiramos mais vezes — sobretudo quando a ciência nos mostra o caminho.

Universo original de Mochofino.- Ano II

sábado, setembro 12, 2026

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Anda tudo num corrupio

   

Neste tempo de regresso às aulas, surge a oportunidade para fazer uma breve reflexão sobre um momento que todos sabem que vai acontecer, que alguns desejam e que outros nem tanto. Continua a sentir-se a dependência de decisões dos responsáveis pelas estruturas da educação e que tendem a ser tardias.
Na rádio, na televisão, nas redes sociais ou nos jornais não é difícil encontrar opiniões, artigos, notícias ou entrevistas sobre um tema transversal e que toca praticamente a toda uma população. Garantidamente encontramos e ou sentimos que existe uma tensão latente. 
Andam todos a mil à hora ou num corrupio que não se esconde, pelo contrário que se manifesta. Desespera-se pelos horários que ainda não saíram, sofre-se por não se saber se há ou não tardes livres, fazem-se contas ao que se vai pagar na aquisição de material escolar, instala-se a dúvida quanto à compatibilidade dos horários escolares com os horários dos transportes e dos empregos... tudo isto representa desassossego e ansiedade.
Mas não ficam por aqui as preocupações, as novas inquietações envolvem a falta de alguns professores, ATL, atividades extraescolares, atividades desportivas e culturais, centros de explicações, apoio parental aos estudos e até grupos de WhatsApp!..
Este corrupio, centrado nos pais e encarregados de educação, revela também alguma fragilidade das estruturas que deveriam garantir estabilidade e confiança. Mostra como a Escola se tornou reflexo das indecisões e atrasos do sistema educativo.
Por isso, Mochofino não pode deixar de questionar:
De que forma estão disponíveis para intervir de modo a minimizar esta ansiedade, dos pais e dos alunos, que é legítima?
Que meios disponibilizam, e em tempo oportuno, para as escolas que inovam?
Que modelo de currículo oferecem, defendem?
Porque continua o sistema a depender de testes e exames como eixo central?
Que autonomia, verdadeira autonomia, não a falácia que tem sido apregoada, estão dispostos a concretizar?
O corrupio é dos pais, mas também é do sistema educativo que não o enfrenta nem o resolve.

Universo original de Mochofino.- Ano II

 

segunda-feira, setembro 07, 2026

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Podia apresentar algumas curiosidades sobre a escala Fahrenheit, mas …

   

Agora, que um novo ano escolar está a chegar, deixo como sugestão a leitura de um artigo publicado a 30 de julho pelo Jornal Expresso, com o título - Menos leitores, mais livros vendidos. Como se explica o paradoxo português?
O artigo chama a atenção para o facto da percentagem de portugueses que afirma ter o costume de ler por prazer, ter caído de 72% para 59% e realça que a tendência se verifica à escala global.
Mais, faz notar a gravidade do problema referindo que a edição da revista norte-americana “The Atlantic” publicou um ensaio extenso sobre o tema com o título “The Age of Reading is Over” (A Era da Leitura Acabou).
Uma passagem no texto remete-nos para a existência de estudos evidenciando que a proporcional redução dos hábitos de leitura é acompanhada por “… uma diminuição da capacidade de concentração, mas também por uma erosão de competências ligadas ao pensamento crítico, à interpretação e ao processamento sintático e semântico…”
É uma erosão que já se nota no quotidiano: alunos com menor resistência ao esforço mental, pessoas que lutam para manter foco contínuo, cidadãos que participam em debates com argumentos cada vez mais reativos, pouco profundos.
Pensando acerca do tema, recordei Fahrenheit 451, o romance distópico de Ray Bradbury. Atentei que alguns dos mecanismos sociais, tecnológicos e culturais que o autor imaginou estão hoje presentes.
Na obra ficcional, os livros tornaram se ilegais porque a sociedade já os tinha abandonado e os que restavam eram queimados para impedir que as pessoas pensassem, sentissem, comparassem, questionassem. Quem lia era visto como perigoso, estranho, subversivo. 
Hoje, os algoritmos de recomendação empurram para conteúdos fáceis, rápidos, e para notícias instantâneas que substituam análise por reação. Sente-se que paira no ar uma hostilidade ao conhecimento complexo — “se não cabe num vídeo de 30 segundos, não serve”.
Bradbury antecipou uma cultura onde pensar é desconfortável.


Observação: 451 graus Fahrenheit [233 ºC] é o valor clássico aceite para a temperatura de autoignição do papel comum usado nos livros. Curioso, não é?..

Universo original de Mochofino.- Ano II


 

domingo, julho 12, 2026

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Ter pano para mangas

   


 Ter pano para mangas

ou quando um ministro da educação corre atrás do prejuízo porque o sistema o obriga a isso.

Literalmente a expressão “ter pano para mangas” significa haver tecido suficiente para continuar o trabalho de costura ou alfaiataria. Figuradamente, tende a ser interpretado como haver assunto que se prolonga, se complica, se desdobra.
Há uma explicação popular, mas frágil, que tenta ligar a expressão aos séculos XVI–XVIII, quando as mangas das roupas eram longas e luxuosas, mas aquelas eram feitas separadamente e até compradas já prontas.
A origem mais consistente é artesanal, ligada ao século XIX.
Independentemente da sua origem, de forma mais ou menos recorrente a questão dos exames nacionais regressa à ribalta e dia após dia, desmentido após desmentido, aqui temos pano para mangas.  E como não falta a criatividade, agora até surge uma nova dimensão: a possibilidade de indemnização às famílias!
Fica por demais evidente a conceção de um sistema de ensino que tem no exame nacional o seu paradigma! Fraco padrão.
É fraco porque reduz o ensino a uma métrica.
É fraco porque não avalia competências.
É fraco porque cria dependência estrutural.
Desligar os objetivos do ensino secundário do imperativo que é a nota de acesso ao ensino superior impõe-se e é urgente. O momento é de mudanças e as roturas são o tempo certo para decisões ousadas. Esta posição não é pacífica, mas não há razões fortes que a contradigam. 
Carl Rogers assumia não ser desejável que um curso terminasse num exame baseado em livros mais ou menos ditados por um professor que desempenha o papel que lhe é atribuído por costume e tradição e que alguns teimam em perpetuar.
Também é verdade que alguns alunos e outros na comunidade educativa, desejam que os professores lhes proporcionem um pedaço de mercadoria intelectual tratada, de modo a ser memorizada e a ser devolvida em exame. É uma opção legítima.
O simples reconhecimento de factos tem o seu valor, é verdade, mas é pouco, muito pouco! As aprendizagens têm de promover mudanças, alterações significativas. O papel do professor é proporcionar os meios aos seus alunos de modo que possam resolver problemas.
Mochofino está de férias, mas não resistiu. Pousado no seu galho habitual e ao ver a confusão instalada, lembra uma exortação antiga — não sejam um vagão de munições; sejam uma espingarda.
A imagem não nasce da exortação, mas do professor de história que Rogers cita — um homem moldado pela Primeira Guerra Mundial, para quem os factos eram munições e o conhecimento só valia quando disparado.  
Pois bem, enquanto não se romper este paradigma, haverá sempre pano para mangas.
Universo original de Mochofino.

segunda-feira, julho 06, 2026

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Quem espera sempre alcança

    

Quem espera sempre alcança.

Mas há dias em que a atitude das pessoas parece provar o contrário: preferem lavar as mãos como Pilatos, fugir e evitar o que lhes toca. Em vez de enfrentarem os problemas e se responsabilizarem, agem como se nada tivesse a ver com elas e afastam‑se.

Pouco lhes importa o que pode acontecer aos outros; não poucas vezes apelam a um lado mais cristão e incitam os demais a fazer bem, sem olhar a quem, como se a bondade fosse um gesto automático, desligado da responsabilidade de olhar verdadeiramente o outro.

Por vezes cometem verdadeiras loucuras — mas todos sabemos que loucuras não remedeiam loucuras, e que a pressa de decidir raramente conduz aos melhores resultados, pois depressa e bem, não há quem. À mesa do café, ah… aí são todos sábios. Cada um com a sua verdade, porque cada cabeça sua sentença.

Defendem ideias apenas porque sim, ou porque gostam de servir, ainda que, muito frequentemente, quanto mais se serve, menos se vale.

Há também quem esconda as suas verdadeiras intenções: mostram o pão, mas escondem a pedra. E se, por alguma razão, lhes é dada a oportunidade de terem algum poder — mesmo que seja pouco ou por pouco tempo — rapidamente o carácter se revela, e o provérbio ganha credibilidade: Põe-lhe uma vara na mão e conhecerás o vilão.

Outros limitam‑se a seguir sem pensar, porque ovelhas bobas, para onde vai uma vão todas. E há os que fogem quando o momento aperta, porque adeusinho é sempre mais docinho. E os que só percebem a gravidade das coisas quando o trabalho difícil chega e a porca finalmente torce o rabo.

Mas não podemos esquecer os que, em desespero, fazem o que for preciso para manter o lugar — não hesitam, pois tal como o diabo, quando se viu desesperado, meteu‑se moleiro. Também os que explodem por tudo e por nada aqui merecem uma palavra, porque ferver em pouca água é a forma mais rápida de parecer forte.

No fim, tudo isto revela o que sempre soubemos: a condição humana é frágil e contraditória, capaz de gestos nobres e de fugas vergonhosas. Mochofino sabe que os provérbios sobrevivem porque mostram caminhos, desvios e possibilidades de escolha. E, com postura, com silêncio ou com um leve bater de asas, lembra‑nos que a escolha, mesmo pequena, é sempre nossa.

Universo original de Mochofino.


Autor - José Pina

Autor - José Pina
Universo original de Mochofino