domingo, dezembro 28, 2025

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O que não tem remédio, remediado está.

Há provérbios cuja interpretação parece consensual, aceitando-se que para situações impossíveis de mudar a melhor atitude é aceitar e continuar.

No site Ciberdúvidas da Língua Portuguesa,

https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/o-significado-de-o-que-nao-tem-remedio-remediado-esta/25918# podemos ler que “este provérbio é denotativo porque corresponde a uma declaração pragmática, visto que a experiência nos demonstra que aquilo que não tem remédio não poderá ser remediado.”

Literalmente a expressão sugere que aquilo que não tem solução já está resolvido pela própria impossibilidade de o resolver.

Mas até onde nos pode levar esta inevitável a aceitação?

Se o quisermos ler no contexto dos anos 1930–40, rapidamente verificamos que os regimes autoritários se apresentaram como “remédio inevitável” para crises, impondo a resignação coletiva. De alguma forma o provérbio acaba por “legitimar” uma solução imposta, mesmo que não seja justa, porque se apresenta como a única saída.

Como exemplo recordemos duas frases que ecoam a resignação e a legitimação do poder absoluto:

Alemanha Nazi (Hitler): O verdadeiro caminho é seguir as ordens do líder.

Portugal no Estado Novo (Salazar): A liberdade é uma necessidade, mas dentro da ordem. / Se o povo soubesse quanto custa governar, não quereria governar.

E se não quisermos recuar tanto no tempo, é suficiente estar atento ao que hoje começa a acontecer, e que é uma erosão democrática, quando governantes eleitos, vão gradualmente concentrando poder, enfraquecendo instituições e controlando a imprensa…  a narrativa oficial apresenta o regime como a única forma de proteger a soberania e a ordem.

A resignação pode conduzir à aceitação como remédio o que não é desejável, pois é uma má solução! Mochofino nunca aceitará a resignação, lembra que há sempre alternativa, mesmo quando dizem que não há.

A memória funciona como contraponto à resignação e transforma o inevitável em resistência. A palavra desistir não deve fazer parte do léxico democrático.

Bom Ano Novo.


Universo original de Mochofino

 

sábado, dezembro 20, 2025

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Laranja antes do Natal livra do catarral

 
Este é um provérbio que nos pareceu adequado para a época e, por isso, mereceu a nossa atenção.
Simples, como é a sabedoria popular, traduz bem a ideia da importância de comer laranjas como forma de prevenir constipações e evitar a tosse.
De facto, as laranjas são ricas, entre outras coisas, em vitamina C e o consumo de laranjas sempre foi visto como uma forma de proteção contra constipações e catarro.
Provérbios como este ajudaram a transmitir recomendações de saúde, numa época em que não havia acesso fácil a médicos ou suplementos alimentares.
Assim, pareceu-nos interessante procurar receitas tradicionais que usam a laranja como forma de atenuar o catarro. Um exemplo clássico é o sumo de laranja com abacaxi e agrião.
Como preparar:
Ingredientes: sumo de 1 laranja, 1 fatia de abacaxi, ½ xícara de folhas de agrião.
Modo de preparação: juntar os ingredientes e esmagar até obter uma mistura homogénea.
Uso tradicional: beber meio copo 2–3 vezes ao dia.
Recordamos que “remédios” caseiros são populares e não substituem acompanhamento médico.

Curiosidade: Apesar de hoje ser muito abundante, a laranja (variedade doce) passou a ser consumida na Europa de forma mais generalizada a partir do século XVI, altura em que os portugueses a trouxeram do oriente e a passaram a cultivar e depois a vender. 
O papel dos portugueses foi de tal maneira determinante na divulgação da laranja doce, que o nome do fruto passou a ser associado a Portugal:
Grego: portokáli
Turco: portakal
Romeno: portocală
Búlgaro: portoka)
Georgiano: p’ortokhali
Farsi: porteghal

Árabe: burtuqāl  / mas curiosamente a palavra laranja tem origem na palavra árabe nāranj, uma variedade amarga e por isso pouco apreciada.

Universo original de Mochofino
 

domingo, dezembro 14, 2025

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Saber esperar é uma virtude

   

Por vezes um provérbio leva-nos a uma frase ou a um conjunto de palavras que já encontramos, já lemos algures.
Foi o caso, recordamo-nos de, imediatamente, automaticamente, mecanicamente, conjunto que localizamos no livro “Ontem, um Anjo disse-me.” de  Fernando Carvalho Rodrigues e Luís Ramos.
De alguma forma e sugestionados pelo provérbio, pensamos que aquele conjunto de palavras poderia ler-se como uma crítica ao tempo atual, uma vez que traduz a ideia de que queremos que tudo aconteça rapidamente. Fomos reler (p.24).

“… Buckhardt… perguntou a Nietzsche: Então como é que vai ser esta coisa do século XX?.../… O século XX vai ser o século da sobressimplificação. Toda a gente ficou a pensar no que ele quereria dizer com isto.
… passados alguns anos, nós sabemos [Carvalho Rodrigues]. No século XX, as palavras-chave de tudo são: automaticamente, mecanicamente, imediatamente. Quando queremos uma coisa, queremo-la já!...”

Sem grande esforço, aceitamos que este dito popular: “Saber esperar é uma virtude” traduz a ideia de  que existe valor em resistir ao imediato.
Saber esperar não representa passividade, mas sim a capacidade de pensar sobre os assuntos, de recusar o impulso.
Saber esperar é uma virtude porque implica disciplina, paciência e confiança e valoriza o tempo como necessidade de aprofundamento, de amadurecimento.

Mochofino, como sempre, ponderado, considera necessário dar tempo ao tempo antes de agir. Contemplativo e silencioso, age em contraponto ao “automaticamente, imediatamente, mecanicamente”.

Universo original de Mochofino

sábado, dezembro 06, 2025

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Agora é que a porca torce o rabo

   

Muitas vezes os provérbios ou as expressões estão fortemente ligados a práticas do quotidiano. No caso presente, agarrar os porcos pelo rabo era uma técnica que os agricultores utilizavam quando pretendiam mudá-los de lugar.
Não se sentindo confortáveis, os porcos reagiam com força movimentavam as ancas de um lado para o outro, numa tentativa de se libertarem.
Esse era o momento em que começava a parte mais árdua pois exigia-se força e habilidade para superar a dificuldade real que é controlar o animal.
Com o passar do tempo, esse momento crucial passou a ser associado ao início do trabalho exigente que é necessário realizar para resolver um problema, uma situação mais complicada.

Não deixa de ser curioso constatar a coincidência da mensagem incluída no provérbio, com a expressão latina “hoc opus, hic labor est”, que pode ser interpretada como “aqui é que está o trabalho” ou “aqui é que começa a dificuldade”.
De facto, a expressão pode ser usada para indicar o ponto difícil de uma questão, o momento em que o desafio se revela.
A expressão mais popular é dita com algum sentido de humor e Roma escreve com solenidade, mas ambas apontam para o mesmo momento.

 Universo original de Mochofino

Autor - José Pina

Autor - José Pina
Universo original de Mochofino