domingo, dezembro 28, 2025

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O que não tem remédio, remediado está.

Há provérbios cuja interpretação parece consensual, aceitando-se que para situações impossíveis de mudar a melhor atitude é aceitar e continuar.

No site Ciberdúvidas da Língua Portuguesa,

https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/o-significado-de-o-que-nao-tem-remedio-remediado-esta/25918# podemos ler que “este provérbio é denotativo porque corresponde a uma declaração pragmática, visto que a experiência nos demonstra que aquilo que não tem remédio não poderá ser remediado.”

Literalmente a expressão sugere que aquilo que não tem solução já está resolvido pela própria impossibilidade de o resolver.

Mas até onde nos pode levar esta inevitável a aceitação?

Se o quisermos ler no contexto dos anos 1930–40, rapidamente verificamos que os regimes autoritários se apresentaram como “remédio inevitável” para crises, impondo a resignação coletiva. De alguma forma o provérbio acaba por “legitimar” uma solução imposta, mesmo que não seja justa, porque se apresenta como a única saída.

Como exemplo recordemos duas frases que ecoam a resignação e a legitimação do poder absoluto:

Alemanha Nazi (Hitler): O verdadeiro caminho é seguir as ordens do líder.

Portugal no Estado Novo (Salazar): A liberdade é uma necessidade, mas dentro da ordem. / Se o povo soubesse quanto custa governar, não quereria governar.

E se não quisermos recuar tanto no tempo, é suficiente estar atento ao que hoje começa a acontecer, e que é uma erosão democrática, quando governantes eleitos, vão gradualmente concentrando poder, enfraquecendo instituições e controlando a imprensa…  a narrativa oficial apresenta o regime como a única forma de proteger a soberania e a ordem.

A resignação pode conduzir à aceitação como remédio o que não é desejável, pois é uma má solução! Mochofino nunca aceitará a resignação, lembra que há sempre alternativa, mesmo quando dizem que não há.

A memória funciona como contraponto à resignação e transforma o inevitável em resistência. A palavra desistir não deve fazer parte do léxico democrático.

Bom Ano Novo.


Universo original de Mochofino

 

sábado, dezembro 20, 2025

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Laranja antes do Natal livra do catarral

 
Este é um provérbio que nos pareceu adequado para a época e, por isso, mereceu a nossa atenção.
Simples, como é a sabedoria popular, traduz bem a ideia da importância de comer laranjas como forma de prevenir constipações e evitar a tosse.
De facto, as laranjas são ricas, entre outras coisas, em vitamina C e o consumo de laranjas sempre foi visto como uma forma de proteção contra constipações e catarro.
Provérbios como este ajudaram a transmitir recomendações de saúde, numa época em que não havia acesso fácil a médicos ou suplementos alimentares.
Assim, pareceu-nos interessante procurar receitas tradicionais que usam a laranja como forma de atenuar o catarro. Um exemplo clássico é o sumo de laranja com abacaxi e agrião.
Como preparar:
Ingredientes: sumo de 1 laranja, 1 fatia de abacaxi, ½ xícara de folhas de agrião.
Modo de preparação: juntar os ingredientes e esmagar até obter uma mistura homogénea.
Uso tradicional: beber meio copo 2–3 vezes ao dia.
Recordamos que “remédios” caseiros são populares e não substituem acompanhamento médico.

Curiosidade: Apesar de hoje ser muito abundante, a laranja (variedade doce) passou a ser consumida na Europa de forma mais generalizada a partir do século XVI, altura em que os portugueses a trouxeram do oriente e a passaram a cultivar e depois a vender. 
O papel dos portugueses foi de tal maneira determinante na divulgação da laranja doce, que o nome do fruto passou a ser associado a Portugal:
Grego: portokáli
Turco: portakal
Romeno: portocală
Búlgaro: portoka)
Georgiano: p’ortokhali
Farsi: porteghal

Árabe: burtuqāl  / mas curiosamente a palavra laranja tem origem na palavra árabe nāranj, uma variedade amarga e por isso pouco apreciada.

Universo original de Mochofino
 

domingo, dezembro 14, 2025

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Saber esperar é uma virtude

   

Por vezes um provérbio leva-nos a uma frase ou a um conjunto de palavras que já encontramos, já lemos algures.
Foi o caso, recordamo-nos de, imediatamente, automaticamente, mecanicamente, conjunto que localizamos no livro “Ontem, um Anjo disse-me.” de  Fernando Carvalho Rodrigues e Luís Ramos.
De alguma forma e sugestionados pelo provérbio, pensamos que aquele conjunto de palavras poderia ler-se como uma crítica ao tempo atual, uma vez que traduz a ideia de que queremos que tudo aconteça rapidamente. Fomos reler (p.24).

“… Buckhardt… perguntou a Nietzsche: Então como é que vai ser esta coisa do século XX?.../… O século XX vai ser o século da sobressimplificação. Toda a gente ficou a pensar no que ele quereria dizer com isto.
… passados alguns anos, nós sabemos [Carvalho Rodrigues]. No século XX, as palavras-chave de tudo são: automaticamente, mecanicamente, imediatamente. Quando queremos uma coisa, queremo-la já!...”

Sem grande esforço, aceitamos que este dito popular: “Saber esperar é uma virtude” traduz a ideia de  que existe valor em resistir ao imediato.
Saber esperar não representa passividade, mas sim a capacidade de pensar sobre os assuntos, de recusar o impulso.
Saber esperar é uma virtude porque implica disciplina, paciência e confiança e valoriza o tempo como necessidade de aprofundamento, de amadurecimento.

Mochofino, como sempre, ponderado, considera necessário dar tempo ao tempo antes de agir. Contemplativo e silencioso, age em contraponto ao “automaticamente, imediatamente, mecanicamente”.

Universo original de Mochofino

sábado, dezembro 06, 2025

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Agora é que a porca torce o rabo

   

Muitas vezes os provérbios ou as expressões estão fortemente ligados a práticas do quotidiano. No caso presente, agarrar os porcos pelo rabo era uma técnica que os agricultores utilizavam quando pretendiam mudá-los de lugar.
Não se sentindo confortáveis, os porcos reagiam com força movimentavam as ancas de um lado para o outro, numa tentativa de se libertarem.
Esse era o momento em que começava a parte mais árdua pois exigia-se força e habilidade para superar a dificuldade real que é controlar o animal.
Com o passar do tempo, esse momento crucial passou a ser associado ao início do trabalho exigente que é necessário realizar para resolver um problema, uma situação mais complicada.

Não deixa de ser curioso constatar a coincidência da mensagem incluída no provérbio, com a expressão latina “hoc opus, hic labor est”, que pode ser interpretada como “aqui é que está o trabalho” ou “aqui é que começa a dificuldade”.
De facto, a expressão pode ser usada para indicar o ponto difícil de uma questão, o momento em que o desafio se revela.
A expressão mais popular é dita com algum sentido de humor e Roma escreve com solenidade, mas ambas apontam para o mesmo momento.

 Universo original de Mochofino

sábado, novembro 29, 2025

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Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele

  

Mais um provérbio e este, à semelhança de tantos outros, alerta para o perigo de se assumirem determinados comportamentos.
Popularmente o lobo é identificado com o perigo, a predação, a figura furtiva que ataca pela calada da noite. Em contos como o Capuchinho Vermelho, o lobo é o vilão astuto, disfarçado.
Vestir a pele do lobo é assumir a aparência, o papel ou os modos do lobo. O aviso que o provérbio carrega é claro, exige coerência entre o que se diz e o que se faz. Quem não quer ser cúmplice, não deve assumir o papel.
Deste modo parece sensato que, quem não quer ser lobo deve evitar qualquer sinal ou atitude que o faça parecer como tal.
O caso recente, que está a chocar a sociedade fundanense em particular, e que surge depois de a Polícia Judiciária ter comunicado que deteve 11 bombeiros do Fundão por suspeitas de crimes de violação e de coação sexual de que foi vítima um jovem bombeiro, numa duvidosa praxe, pode materializar-se no seguinte manifesto: “Quem pratica abusos não pode fingir que não é lobo.”
Mais, o lobo neste caso é, também, o sistema que tolera, que tende a encobrir e que incentiva sob a capa da praxe. O lobo é o veterano que humilha e o sistema que perpetua abusos. O caloiro é forçado a vestir uma pele que não escolheu, concordando ou não.
O provérbio lembra que vestir a pele do lobo é sempre uma escolha consciente. Quem pratica abusos, quem perpetua tradições violentas, quem se esconde atrás de desculpas, assume o papel de predador. Quem humilha, quem oprime, quem agride, escolhe ser lobo. Não é rito, é predação.
O caso, é ainda mais chocante porque relacionado com uma Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários. Naturalmente, importa dizer de forma bem clara que não se pode confundir a árvore com a floresta, mas o impacto de uma praga, ao atingir uma árvore, pode ser devastador.
Para combater pragas, é necessário combinar prevenção, monitorização e boas práticas de gestão sob pena de se poder atingir um ponto de não-retorno.

Universo original de Mochofino

 

domingo, novembro 23, 2025

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Casa onde entra o sol, não entra o médico.

   

Este provérbio lembra-nos que o sol é vida, saúde e equilíbrio.

No mundo rural, sempre se teve a preocupação de abrir janelas e aproveitar a luz solar. No fundo podemos interpretar essa prática como viver em harmonia com a natureza. O sol simboliza higiene, vitalidade e bem-estar. 

Pensava-se, e com razão, que deixar o sol entrar era tão importante como qualquer remédio. Uma casa iluminada e arejada é menos propensa a doenças. No fundo equivale a assumir a importância da saúde preventiva e este exercício diário faz todo o sentido estejamos, ou não, no mundo rural.

Esse ditado também acaba por alertar para a importância de considerar a orientação solar dos edifícios habitacionais, uma vez que existe uma relação direta com o conforto térmico, o consumo energético e a durabilidade dos materiais.

Aproveitando o provérbio centramos a nossa atenção, ainda que de forma breve, sobre o aproveitamento que se faz da radiação solar enquanto passível de ser convertida em energia elétrica.

A luz solar é uma radiação eletromagnética e a ela está associada energia. Todos os dias, o sol emite uma enorme quantidade de radiação e uma parte dela chega à Terra e permite a existência de múltiplas formas de vida.

Considerada uma fonte renovável, faz dela um alvo apetecível no contexto da produção de energia elétrica e tem-se assistido à construção de centrais fotovoltaicas que produzem energia limpa, isto é, energia a que não associamos emissão de gases poluentes ou com efeito de estufa durante a geração e, assim, contribui para a redução das alterações climáticas.

Tudo parece estar bem, mas Mochofino de forma muito simples proclama: “O sol deve curar, não deve ferir”. Esta frase é um enorme alerta para os riscos que se correm quando o excesso ou a exploração desmedida é a regra. Instalar mega centrais solares, sem respeito pela biodiversidade ou pondo-a em causa, não podem ser tolerados em nome do progresso. O progresso é importante, é um facto, mas sempre respeitando o ambiente.

Quando se projetam grandes centrais solares, por vezes com efeito cumulativo, pois juntam-se a outras já existentes no mesmo território, é importante reconhecer que a sabedoria popular, feita de experiência e em comunhão com os ritmos da natureza, tem imenso valor e que não pode, pura e simplesmente ser ignorada. Em caso algum deve ser apagada ou desconsiderada.

Muitas vezes afirma-se, em defesa da construção de centrais solares, que se vai minimizar impactos, nomeadamente impactos nos ecossistemas.

Pois é, só por si minimizar já traz consigo o mal que irá causar, assim, é determinante que se mantenha aberto um diálogo constante entre o passado e o presente e nunca o silenciar, ou secundarizar, para garantir o futuro.

Universo original de Mochofino

domingo, novembro 16, 2025

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Novembro à porta, geada na horta

Este provérbio alerta para a chegada do frio e das primeiras geadas.

Com o outono já avançado, pareceu-nos ter alguma pertinência apresentar este provérbio com ligação ao clima.  Esta ideia ganha ainda mais força sabendo que está a decorrer a “Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas”, na cidade brasileira de Belém, no Brasil. 

Mochofino, o nosso especialista a interpretar provérbios, está a sentir a temperatura baixa que se faz sentir e não hesitou em permanecer mais imóvel, contrair o corpo e eriçar as penas, para se proteger, pois, tudo à sua volta está gelado. As folhas da sua árvore favorita acrescentam alguma proteção.

As aves recorrem a mecanismos e posturas naturais para conseguirem conservar o calor corporal. De forma simples e engenhosa criam uma camada de ar entre as penas, eriçando-as, que funciona como uma barreira de isolamento térmico.

Mochofino, de forma elegante, dá-nos um sinal simples e aponta um caminho quanto ao modo de atuar no ambiente e sem exigir mais do que já possui.

Gestos simples, mas eficazes, que traduzimos na seguinte metáfora: 

Eriçar as penas - Isolar casas e edifícios para reduzir consumos energéticos. 

Contrair o corpo - Reduzir o desperdício e adotar hábitos de consumo conscientes.

Permanecer imóvel - Optar por transportes sustentáveis.

Usar o ambiente (ramo, folhas) - Aproveitar soluções naturais e reflorestar.

Universo original de Mochofino


sexta-feira, novembro 07, 2025

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Os olhos são o espelho da alma

   

Olhando para os olhos, supostamente, é possível reconhecer alegria ou tristeza, serenidade ou medo, ansiedade… é assim que tende a ser interpretado este dito popular. É comum ouvirmos dizer: “Não precisas de dizer nada, basta olhar para ti.”
Há quem acredite que mesmo que se tente esconder o que se sente, os olhos acabam por trair essa intenção, a revelação acontece. Filósofos/escritores como Plutarco escreveram sobre o poder destrutivo do olhar, sugerindo que os olhos emitiam uma espécie de energia capaz de afetar os outros. Atribuíam-se, assim, ao olhar humano poderes sobrenaturais.

A crença de que o olhar era entendido como um canal de energia espiritual, estava na base de uma prática: a catoptromancia, onde o reflexo do rosto e do olhar revelava muito mais do que a aparência. Surgiu na Grécia Antiga e era usada para prever o futuro, para mostrar destinos ocultos e mundos paralelos. 
Afinal, o espelho, que no uso comum, queremos que nos devolva a aparência, teve uma importância maior, pois para além de devolver uma imagem física, ainda que virtual no caso dos espelhos planos, também permitia revelar um estado de espírito!
E se dúvidas ainda houvesse acerca da importância do olhar, o que dizer do Olho de Hórus, símbolo de proteção, cura, poder real e visão espiritual, no antigo Egito. 
Mas a importância do olhar chega ao ponto de, em plena idade média, se acreditar que pessoas com olhos estrábicos podiam lançar maldições involuntárias.


Universo original de Mochofino

 

domingo, novembro 02, 2025

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Quanto mais alto se sobe, maior é a queda.

   

Este é mais um daqueles provérbios que ouvimos de forma recorrente.
A interpretação quanto ao seu significado é muito consensual, ainda que o possamos associar a múltiplas situações.
Não fosse um ditado popular e podia interpretar a afirmação na ótica da Física: Um corpo ao subir ganha energia potencial gravítica e, em queda livre, toda essa energia acumulada vai sendo transformada em energia cinética e o resultado poderia ser catastrófico ao chegar ao chão!
Não sendo este o caso, a sua interpretação passa sempre por se lhe associar uma advertência poderosa pois alerta para os riscos da ambição desmedida, da vaidade descontrolada, da arrogância. 
No fundo, traduz a ideia de que quanto maior for o sucesso ou a posição social, mais dolorosa poderá ser a queda se algo correr mal.
Como sempre, quando apresento um novo provérbio obrigo-me a pesquisar a sua origem ou a sua existência noutras latitudes, noutros contextos. E, algumas vezes, procuro encontrar uma fábula que lhe possa associar.
Foi o caso. “A mosca em cima do carroça”, de Esopo, traduz de forma sublime o sentir do provérbio.
Em resumo: uma mosca pousou numa carroça, carregada, puxada por uma mula. Achou-se tão importante por ir no alto, que começou a falar com arrogância contra a mula, dizendo que andasse mais depressa, se não que a castigaria picando-a onde lhe doesse. A mula retorquiu dizendo-lhe que para além do incómodo que é ouvi-la, nenhum mal maior lhe poderia fazer.
Torna-se evidente que a mosca, no alto da sua altivez, sente-se como protagonista de algo que não controla. A queda, neste caso, é moral pois a sua influência é praticamente nula. Estamos, pois, perante uma crítica à arrogância.

 Universo original de Mochofino

domingo, outubro 26, 2025

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Ala, que se faz tarde!

 

Não foi por acaso que escolhemos esta expressão tão popular para esta altura do ano. De facto, esta madrugada mudou a hora e passamos a ter a hora de inverno. Os dias amanhecem mais cedo, mas à tarde temos sol de pouca dura!

De uso comum no nosso país e muito em particular em Trás-os-Montes, o provérbio que hoje apresentamos, para além de possuir uma raiz popular e literária, com séculos de uso, traduz a urgência de partir ou encerrar uma ação. 
A frase que sustenta o provérbio, é uma frase exclamativa usada para ordenar a alguém que se apresse a partir.
Em Criação, de Miguel Torga, podemos encontrar: «… Lopes mandou seguir. Estava visto o que mais interessava — ala! que se faz tarde.»
Mas, se Miguel Torga recolheu e divulgou esta e outras expressões como parte do património oral português, se recuarmos mais no tempo, podemos encontrar o mesmo sentido do provérbio no auto da Barca do Purgatório, de Gil Vicente, quando o diabo tenta levar as almas para o inferno e ordena: “Ala! ala! …” e recorre à interjeição para dar ordens, apressar e intimidar os condenados.
Ainda, como curiosidade, reforçando a certeza e a importância da transmissão oral, palavra a palavra, e também nas zonas de fronteira, fica o registo de: “¡Hala, que se hace tarde!”.
A estrutura é praticamente idêntica e transmite a mesma ideia: Vamos, que já é tarde.

Universo original de Mochofino

segunda-feira, outubro 20, 2025

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Deitar água na fervura.

   

Deitar água na fervura

À letra, esta expressão, poderia ser interpretada como adicionar água fria a água em ebulição de modo a baixar a temperatura.

No entanto, o seu uso está amplamente ligado às tentativas de conciliação entre partes ou diminuição de excesso de euforia e, como não podia deixar de ser, recorremos ao nosso especialista em provérbios,  Mochofino, em plena ação conciliadora — com expressão serena, entre dois personagens exaltados e com objetivo claro de “deitar água na fervura”. 

Para reforçar esta interpretação, citamos Machado de Assis, que emprega a expressão no conto O Relógio de Ouro (1873): “… contudo, a tristeza da filha sempre lhe punha água na fervura…” usando-a no sentido de arrefecer o ambiente que estava tenso.

E, também, José Gomes, treinador de futebol do Marítimo, que há uns anos e após uma vitória sobre uma equipa de maior valor afirmava: “… compete-me a mim colocar alguma água na fervura dos festejos...”

Ainda que não nos tenha sido possível encontrar uma fábula que inclua a frase “deitar água na fervura”, não quisemos perder a oportunidade de realçar a importância de alguém intervir, mas com sabedoria, para alcançar a harmonia e diminuir a desavença entre partes.

A fábula dos dois bodes parece servir este nosso propósito, mas temos para nós que Mochofino teria sido o ator certo.

Universo original de Mochofino

segunda-feira, outubro 13, 2025

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De Roma vem o que para Roma vai

 

Este é um daqueles provérbios que talvez mais se afasta do conceito que temos para os mesmos, uma vez que os provérbios são frequentemente usados como ditos, tendo em consideração a sua raiz popular.

Não é muito conhecido e a sua origem, uma vez mais, não é conhecida. Pouco importa, parece-nos pertinente e mereceu a nossa atenção porque nos foi ensinado por um amigo que, infelizmente, já não está entre nós!

A interpretação que para o mesmo nos foi dada traduz-se na orientação, imposição ou oposição, que surge depois de questionarmos uma entidade que gosta de exercer o poder hierárquico e que, dessa forma, condiciona a nossa vontade de fazer algo diferente.

As ideias e a vontade de as concretizar devem ser acolhidas e interpretadas como verdadeiras manifestações de liberdade e, muitas vezes, quem determina, manda calar, manda parar, porque tudo quer controlar.

A necessidade permanente de perguntar quando se pode fazer, avançar, acabará por nos conduzir à inação. É um mau hábito estar sempre à espera da resposta que muitas vezes tardará e outras vezes, se surgir, vem para condicionar a vontade de realizar ou o modo de o fazer.

Talvez não haja necessidade de se optar entre o caminho que não existe previamente e é construído pelo ato de andar [António Machado] e o caminho da invenção, rutura, gesto criador contra a norma [Almada Negreiros]se se aceitar a ideia de fazer sem estar sempre à espera de autorização. 


Universo original de Mochofino
 

quinta-feira, outubro 02, 2025

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A união faz a força

 

A união faz a força
A interpretação deste provérbio expressa a ideia de que, quando pessoas se juntam com um propósito comum, conseguem superar obstáculos que dificilmente seriam transponíveis individualmente.
Uma simples pesquisa revelou que países como a Bulgária ou a Bélgica utilizam como lema “A união faz a força” destacando a importância da unidade para superar desafios e alcançar objetivos comuns. 

Também é frequente encontrar a ideia de que a sua origem esteja numa fábula atribuída a Esopo, “o velho e o feixe de varas “, onde um pai mostra aos seus filhos que um feixe é inquebrável, enquanto uma vara sozinha se quebra facilmente.
O provérbio “a união faz a força” é daqueles que atravessam culturas, épocas e contextos, continuando atual. No fundo, estamos perante uma celebração da colaboração, da solidariedade, da interdependência.
Com o apoio dos nossos “especialistas” na interpretação de provérbios, ousamos dizer que a construção tem mais valor, mais força do que uma simples união ou reunião.
O sermos capazes de fazer acontecer, de construir em conjunto será uma mais-valia pois tenderá a perdurar.

Universo original de Mochofino

segunda-feira, setembro 22, 2025

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No outono o sol tem sono

 

Este provérbio leva-nos a pensar que os dias luminosos de verão estão a acabar, aproximam-se noites longas, o Sol “põe-se” mais cedo. A palavra outono teve origem no termo latino autumnus que significa "época de colheita" / "amadurecimento" o que releva a importância agrícola da estação, pois muitos produtos agrícolas estão prontos a ser colhidos, porque maduros, estando garantido deste modo os alimentos para os meses frios que se aproximavam: 
 - A castanha o fruto que o São Martinho eleva, as uvas que darão origem ao vinho e que estará presente nas celebrações, pois a ele podemos associar a ideia de libertação das convenções sociais.
Os citrinos chegam à mesa e, naturalmente, as maçãs, as peras, os marmelos, as romãs… As nozes, as amêndoas e as avelãs acrescentarão algo muito especial à alimentação.
As abóboras abundam e serão a base de sopas.
Com a chegada do outono os rituais de agradecimento pela abundância das colheitas vão acontecendo e contribuem para que os dias fiquem menos tristes!
Mas contrastando com a escuridão, que chega mais cedo, os dias de outono trazem cores suaves, pois a natureza brinda-nos com uma magnífica palete de cores ao vestir as árvores de amarelo e vermelho, de laranja, castanho, verde e mesmo de tons violeta!
Mas neste outono de 2025 os nossos olhos choram a dor da perda da floresta. As serras à nossa volta, normalmente pintadas com sublime palete de cores,  tendem agora a ser de negro pintadas.
Troncos negros erguem-se como visões fantasmagóricas e as cinzas substituem as folhas no chão.
Os fogos de verão foram severos, cruéis!
Ficamos mais pobres.
Sempre atentos os nossos heróis interpretam esse sentimento, esse estado de alma.
Rouxinol Trovador não canta como habitualmente.
Mas no ar há um murmúrio — um dia, o canto voltará e, qual semente, resistirá sob a cinza, no solo queimado, para mais tarde renascer. 

   Universo original de Mochofino
 

sexta-feira, setembro 19, 2025

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Depois da tempestade vem a bonança

  

Depois da tempestade vem a bonança
Este é um dos provérbios mais conhecidos e, se interpretado linearmente, refere-se a uma situação climática: após uma tempestade, o tempo melhora e surge a bonança, o céu limpo, a tranquilidade.
Mas, à semelhança de todos os ditos populares, encerra um sentido figurado ligado à vida: depois de momentos difíceis, virão tempos melhores. Estamos perante uma manifestação de esperança sugerindo que o tempo de sofrimento terá um fim, não dura para sempre.
Este provérbio e a releitura da Cantilena, de Sebastião da Gama, levou-me a criar um aliado para ajudar a interpretar este provérbio com um olhar diferente. Apresento o Rouxinol Trovador.

O Rouxinol Trovador canta durante a tempestade, não depois.

A tempestade: representa o caos, o medo, o momento em que tudo parece correr mal; a bonança não é apenas o fim da dor, da tempestade, é a luz que voltará após a escuridão.

A floresta estava a ser atingida por ventos impiedosos e quando a tempestade chegou as aves abrigaram-se o melhor possível entre os ramos das árvores, no interior de troncos ocos, sob as folhas, e esperavam que o tempo mudasse e melhores dias chegassem.
Todas... menos uma!
O Rouxinol Trovador, pequeno e corajoso, entre os espinhos de um silvado e exposto ao vento e à chuva, cantava enquanto todos se curvavam perante a tempestade. Cantava porque sabia que o som do seu trinado iria abrir caminho onde a escuridão reinava.

Escondidas, as aves murmuravam entre si:
— “Está louco. Vai ser levado pelo vento.” — “Não vê que ninguém o vai acompanhar?” — “O canto é bonito, mas não muda o tempo.”
O tempo estava agreste, mas o Rouxinol Trovador continuava a cantar.
A pouco e pouco, o céu começou a clarear. Não por magia, mas porque o canto rompeu a escuridão, o vento acalmou e as nuvens escuras e cerradas foram-se dissipando, a luz chegou.
As aves saíram dos seus esconderijos e o Rouxinol continuava a cantar.
Uma das aves aproximou-se e perguntou:
— “Por que cantaste, quando tudo parecia perdido?”
O Rouxinol respondeu:
— “Porque o canto não espera o fim da tempestade. Ele é o começo da bonança.”

  Universo original de Mochofino

quarta-feira, setembro 10, 2025

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Só sei que nada sei

   

Só sei que nada sei.

Esta afirmação utilizada, vezes sem conta, como provérbio, como dito popular, é uma máxima atribuída a Sócrates e é comum ser interpretada como traduzindo a ideia de que ninguém é dono da verdade e que aponta para a importância de ser corajoso para admitir que não se sabe tudo.

A sabedoria popular também interpreta este provérbio como algo que se constrói com o tempo, que se aprende com os erros e com o diálogo.

Este dito parece ser uma paráfrase do pensamento socrático, aproveitando a máxima “Conhece-te a ti mesmo”, uma vez que para Sócrates o autoconhecimento era o ponto de partida para a sabedoria, a ética e a vida justa.

Sócrates acreditava que o verdadeiro conhecimento só poderia ser alcançado por meio da autoanálise e do questionamento constante e este modo de pensar levou à maiêutica: método que consistia em fazer perguntas para que o interlocutor descobrisse verdades por si mesmo.

De forma clara rejeitou a sabedoria aparente e frequentemente confrontava os que se diziam sábios, mostrando que não se conheciam a si mesmos, nem os conceitos que defendiam.

Universo original de Mochofino

quinta-feira, setembro 04, 2025

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Onde há vontade, há um caminho!

   

Um novo provérbio, uma interpretação para o mesmo.

“Onde há vontade, há um caminho!”
Este provérbio tende a ser interpretado como sendo a força de vontade o garante da construção de caminhos. Isto é, a vontade é a solução para superar obstáculos e alcançar objetivos. Basicamente sugere que a determinação é a força capaz de ultrapassar os obstáculos que a vida vai revelando.
Mas será que a força de vontade é suficiente?

Poucos dias passaram desde que foram conhecidos os resultados das colocações dos alunos no ensino superior. Alegrias, tristezas, desespero e aceitação, de tudo um pouco foi possível encontrar nas declarações dos alunos, dos pais, dos professores...
Para alguns, anos de esforço, noites mal dormidas e caminhos meticulosamente desenhados e cumpridos trouxeram lágrimas de felicidade, abraços bem apertados e aquela sensação de que, finalmente, tudo valeu a pena.

Para outros, porém, o cenário foi muito diferente, pois a não colocação ou a entrada num curso que não era a primeira escolha gerou frustrações, silêncios pesados, angústias, sentimentos de injustiça...

Há quem se questione sobre o valor do esforço, sobre o que fazer a seguir, sobre se vale a pena tentar outra vez, mas há também quem encontre a aceitação, que não a resignação, de admitir que o caminho a percorrer não é simples e que os sonhos podem ser adiados, mas não apagados.

Mochofino sugere que a vontade de continuar é o que transforma cada obstáculo numa nova oportunidade e é esta interpretação que deve ser valorizada no dito popular:
“Onde há vontade, há um caminho!”

Universo original de Mochofino

quinta-feira, agosto 21, 2025

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O Diabo viu-se desesperado, meteu-se moleiro

   


 “O diabo viu-se desesperado, meteu-se moleiro”

Este provérbio — “O diabo viu-se desesperado, meteu-se moleiro” — há semelhança de tantos outros não tem uma origem bem definida. Passam de boca-em-boca e por vezes ficam muito ligados a um determinado lugar ou região.

Uma coisa é certa, a figura do moleiro surge em inúmeras histórias e tinha fama de astuto.


Quanto ao Diabo, é impossível não associarmos esta personagem à tentação, mas também ao disfarce e à esperteza.

Se o diabo está em apuros é porque a coisa está feia e para se excluir da responsabilidade há que disfarçar e a ter de adotar uma forma humana para passar despercebido que seja a de um moleiro, adotar uma profissão associada à astúcia.

O momento que vivenciamos, com fogos constantes, conduziu à interpretação por Mochofino e Papagaio Tagarela.

Universo original de Mochofino

quinta-feira, agosto 14, 2025

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Ficar a ver navios

 


Ficar a ver navios

Este ditado popular remete para a sensação de desapontamento ou de desilusão de quem espera algo que nunca concretiza.

Tudo acontece à sua frente, mas fica a sensação de que apenas lhe resta observar.

No fundo, traduz o sentimento de estar à margem dos acontecimentos ou de ver as ocasiões escaparem por entre os dedos.

Mas “Ficar a ver navios” pode ter surgido como a esperança não realizada dos armadores que viam o mar, mas não os navios que deviam trazer riqueza da Índia e surge deste modo um sentimento de perda.

No entanto, este mesmo sentimento pode associar-se à vã espera de ver chegar o rei D. Sebastião, após a derrota na batalha de Alcácer Quibir.

Há, ainda, quem associe esta expressão ao tempo em que os franceses chegaram a Lisboa, na 1ª invasão francesa, e constataram a família real e toda a corte tinha saído para o Rio de Janeiro.

Universo original de Mochofino

domingo, agosto 10, 2025

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O silêncio é ouro! (contém fábula)

 

O silêncio é ouro!

Normalmente associa-se este provérbio, ou dito, à ideia de que nem tudo precisa de ser dito. Isto é, deve ver-se a importância do silêncio como forma de proteção.

O silêncio pode evitar conflitos, preservar relações, proteger…

O silêncio pode ser interpretado como a capacidade, e a importância, de guardar um segredo valioso. Mas também pode ser percebido como uma competência de saber escutar.

Falar parece ser mais fácil do que escutar, pois saber ouvir exige atenção. No fundo o silêncio é o campo onde se desenvolve a introspeção e que melhora o autoconhecimento.

Mochofino, na sua postura meditativa, ensina que há força no silêncio e que muitas vezes, a melhor decisão não é responder de imediato, mas sim meditar, refletir primeiro.

Esta postura pode ser associada a outros ditados populares e desde logo ao:

Mais vale calar do que mal falar.

 

"O papagaio tagarela" [uma fábula]

No alto da sua árvore preferida Mochofino aproveitava o valor do silêncio.

Mas o silêncio foi interrompido, pois o mundo não para e por vezes… fala demais.

Num ramo mais próximo do solo um papagaio, com penas muito vistosas de cor verde, convencido do seu enorme saber, fala sem parar para um grupo de aves e outros animais que tão depressa manifestavam concordância como discordância. Alguns abanavam e ou coçavam a cabeça tal a confusão de ideias.

O auge da indignação foi atingido quando o papagaio inchando o peito proferiu: - “Eu tenho a certeza de que a Lua só é visível há noite porque o Sol se foi movimentando e se escondeu atrás das montanhas!”

Um coelho saltou de indignação, uma raposa revirou os olhos, as aves bateram vigorosamente as asas e voaram e até um caracol quis abandonar o local rapidamente!

Mochofino fechou os olhos e suspirou.

Sentindo-se incompreendido o papagaio olhou para cima e pergunta: “E tu, ó mocho, qual a tua opinião?

Mochofino respondeu num tom bem calmo e com alguma ironia: “Eu gosto de silêncio.” O papagaio fechou o bico. A calma regressou e o silêncio também.

Universo original de Mochofino

sexta-feira, agosto 08, 2025

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Dá Deus nozes a quem não tem dentes.

 


Dá Deus nozes a quem não tem dentes

Expressão acompanhada de alguma ironia e que remete para uma reflexão sobre as voltas que a vida dá. No fundo pode exprimir a ideia de que por vezes há quem receba coisas valiosas, mas que não sabe como aproveitá-las.

Existe aqui uma certa dose de inveja que Mochofino tenta transmitir.

Não deixa de ser uma crítica à circunstância de certas oportunidades estarem disponíveis para quem não as pode aproveitar, enquanto outros que as saberiam usar ficam a ver navios.

José Pina

Universo original de Mochofino

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Faz bem não olhes a quem (na forma de fábula)

 


"Faz bem, não olhes a quem"

Este conhecido provérbio encerra uma mensagem poderosa sobre a generosidade, a ajuda. Praticar o bem, ajudar ou ser gentil para com todos e independentemente do destinatário e não esperar reconhecimento ou recompensa.



A capa da bondade

A lenda de S. Martinho na forma de fábula.


 Mochofino, o mocho mais sábio da floresta, regressava ao seu ninho, bem no alto de um soberbo carvalho e enrolado na sua capa de penas avermelhadas e que somente ele sabia usar. A capa em tons de vermelho era um presente que recebera durante o verão. Era um presente muito especial do astro-rei, o Sol.

As folhas das árvores movimentavam-se ao sabor do vento. A tarde estava fria e uma chuva miudinha e persistente ajudava a recordar que o inverno se aproximava.

Acabado de pousar num galho bem forte, ouviu um gemido. Lá em baixo, junto ao tronco, estava um pequeno pássaro, tremendo de frio, pois as suas penas estavam completamente encharcadas. Era novo o passarinho e faltava-lhe a proteção dos pais.

Sem pensar duas vezes, Mochofino abriu as asas e voou até junto da pequena ave. Sem hesitar cortou uma parte da sua deslumbrante capa e envolve a avezinha com ela. A capa aqueceu-a rapidamente como se de um raio de sol se tratasse.

Nesse momento as nuvens afastaram-se, deixou de chover, o vento parou e o Sol brilhou. A tarde ficou quente, parecia verão.

O pequeno pássaro olhou para Mochofino e perguntou-lhe:

— “Por que fizeste isso por mim? Nem me conheces…”

Mochofino respondeu com um sorriso sábio:

— “Faz bem, não olhes a quem.”  Olhou uma última vez para o passarinho e regressou ao seu ninho.

Desde então, todos os anos, os animais da floresta celebram este dia com castanhas assadas e chamam-lhe verão de São Martinho.

José Pina

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O que é achado não é roubado (na forma de fábula)

 


“O que é achado não é roubado”

O provérbio sugere que encontrar algo perdido não equivale a roubar, pois não houve intenção de subtrair diretamente de alguém.

O Voo da consciência

"Um brilho no campo"

No campo dourado Mochofino, um mocho sábio de olhos grandes e olhar atento, com penas acastanhadas e padrão discreto, sobrevoa o campo e encontra algo cintilante. Uma pulseira aquecida pelo sol.

"O que é achado, não é roubado."

Mochofino tinha encontrado uma pulseira e depois de um pequeno voo descansa no ramo de árvore. Bem quieto vê dois homens que se aproximam e acaba por escutar a conversa entre eles: “Achado não é roubado, quem perdeu foi relaxado!” diz um dos homens, sorrindo.

Mochofino reflete sobre o que lhe aconteceu e sobre o que ouviu. Inclinou a cabeça e concluiu: O que o homem disse tinha alguma lógica, mas… seria justo?

"O conselho da noite"

O tempo, normalmente é bom conselheiro, e o sossego da noite permitiu ao nosso herói concluir que: “Não roubar não é o mesmo que agir com justiça”.

"A devolução"

Ao longe, mas não suficientemente distante para que escapasse à sua visão excecional, Mochofino viu uma criança à janela da sua casa e o seu olhar não deixava margem para dúvidas, era triste. Rapidamente percebeu o que tinha acontecido e tomou uma decisão.

O dia clareou e voou em direção à casa. A janela abriu-se e colocou no parapeito a pulseira que tinha encontrado. Um sorriso iluminou o rosto da menina.

"O voo da sabedoria"

Mochofino afasta-se satisfeito porque sabe que: “A verdadeira sabedoria voa com asas de justiça. Porque quem devolve o que encontra… nunca se perde.”

José Pina

quarta-feira, julho 09, 2025

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Cabra coxa não tem sesta

Cabra coxa não tem sesta

Este provérbio traduz o esforço continuo de quem carrega limitações, mesmo quando os outros descansam.
A ilustração dá força à caminhada persistente e as pegadas, irregulares, marcam um trajeto de vida cheio de dificuldades e de perseverança.


José Pina

terça-feira, julho 08, 2025

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Dar o peixe ou ensinar a pescar?



 Estamos perante uma metáfora que coloca em confronto a opção entre a ajuda e a autonomia. Possivelmente a melhor das opções será combinar os duas.

Numa situação de emergência dar o peixe pode ser a atitude correta, mas nunca deixando de ter presente que o passo seguinte passará por ensinar a pescar depois.

Transpondo o provérbio para o contexto escolar surge de imediato a posição defendida por Papert (1980) quando afirmava que o "...papel do professor deve consistir, fundamentalmente, em saturar o ambiente de aprendizagem com os nutrientes cognitivos a partir dos quais os alunos constroem conhecimento…" mas também insistia que aos alunos se deveriam proporcionar as ferramentas adequadas à exploração desses mesmos nutrientes.
Este pequeno texto deixa a ideia clara acerca deste modo de encarar o papel da escola, dos alunos e dos professores!


José Pina

Universo original de Mochofino

quarta-feira, julho 02, 2025

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Mochofino: Sou eu!

 

Apresento o Mochofino – personagem que diz ser o verdadeiro guardião da sabedoria popular. Segundo ele, junta a sabedoria popular à ironia, mas sem ser maldoso. Que virtuoso!

Mochofino é uma personagem misteriosa e teatral, gosta de se apresentar no galho de uma árvore, de preferência num carvalho de grande porte, numa atitude de quem vê e sabe tudo.

Não sendo a fala a sua maior capacidade recorre à sua postura para transmitir emoções, mas não hesita em assumir a sua capacidade de transformação, mostrando-se com um aspeto próximo dos humanos.

Mochofino garante que interpreta os provérbios de uma forma simples, mas afirma a pés juntos que é capaz de associar uma emoção a qualquer deles, ou de os transformar numa fábula, ou de os interligar, ou de lhe associar uma interpretação mais rebuscada, mais erudita!

Bem… a humildade parece não ser o seu ponto forte e há quem diga que é capaz de voltar as costas quando a conversa não lhe agrada, como quem diz: vou ali, já volto!

Uma coisa é certa, o seu grande objetivo é divulgar a sabedoria popular para garantir que a tradição não se perca.

Será verdade? O melhor é testá-lo.

José Pina

Universo original de Mochofino

terça-feira, julho 01, 2025

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O início (como tudo começou)

 

Não sei qual o momento, muito menos o contexto, em que pela primeira vez ouvi: “A tudo Nosso Senhor nos leva, se a saúde não nos faltar".

Também não faço a menor ideia se tem valor de provérbio ou dito popular. Sei, isso sim, que associo esta expressão a uma outra: "Ao que nós chegamos!".

Apenas sei, porque registei, que resolvi perguntar a uma IA (no caso a Copilot) se havia algum registo para qualquer das preposições e obtive como resposta um não. Claro que a resposta obtida não implicava que as mesmas não tivessem existência, porque eu as usava e alguns amigos, também. Curioso foi quando solicitei se fazia sentido ligar ou interligar as duas preposições e solicitei o que poderia ser comum na sua interpretação.

Múltiplas respostas para múltiplas interpelações, nada que eu não esperasse, mas todas com algum sentido. Na última vez que perguntei foi-me apresentada a conclusão de que qualquer dos ditos pareciam ter nascido da experiência, da oralidade, da observação do mundo.

Basicamente pode concluir-se que são frases que se dizem em momentos de desabafo. Têm peso porque vêm de quem os viveu. Ora bem, a conclusão considero-a pertinente e verdadeira e quando dei por mim estava a pensar que seria interessante olhar para os provérbios de uma maneira diferente.

Isto é, interpretá-los à letra, lê-los com um olhar diferente e enquadrados numa corrente filosófica e, porque não, trabalhá-los recorrendo a uma nova ferramenta digital. Estava decidido, mas precisava encontrar um personagem que também pudesse ser ator, ser intérprete.

Mochofino, foi a primeira criação conjunta.

A ilustração deste "post" é a primeira evidência do trabalho que pode ser realizado e onde Mochofino, como intérprete, exprime emoções!

Autor - José Pina

Autor - José Pina
Universo original de Mochofino