Ainda, como curiosidade, reforçando a certeza e a importância da transmissão oral, palavra a palavra, e também nas zonas de fronteira, fica o registo de: “¡Hala, que se hace tarde!”.
Deitar água na fervura
À letra, esta expressão, poderia ser interpretada como adicionar água fria a água em ebulição de modo a baixar a temperatura.
No entanto, o seu uso está amplamente ligado às tentativas de conciliação entre partes ou diminuição de excesso de euforia e, como não podia deixar de ser, recorremos ao nosso especialista em provérbios, Mochofino, em plena ação conciliadora — com expressão serena, entre dois personagens exaltados e com objetivo claro de “deitar água na fervura”.
Para reforçar esta interpretação, citamos Machado de Assis, que emprega a expressão no conto O Relógio de Ouro (1873): “… contudo, a tristeza da filha sempre lhe punha água na fervura…” usando-a no sentido de arrefecer o ambiente que estava tenso.
E, também, José Gomes, treinador de futebol do Marítimo, que há uns anos e após uma vitória sobre uma equipa de maior valor afirmava: “… compete-me a mim colocar alguma água na fervura dos festejos...”
A fábula dos dois bodes parece servir este nosso propósito, mas temos para nós que Mochofino teria sido o ator certo.
Este é um daqueles
provérbios que talvez mais se afasta do conceito que temos para os mesmos, uma
vez que os provérbios são frequentemente usados como ditos, tendo em
consideração a sua raiz popular.
Não é muito conhecido e
a sua origem, uma vez mais, não é conhecida. Pouco importa, parece-nos
pertinente e mereceu a nossa atenção porque nos foi ensinado por um amigo que,
infelizmente, já não está entre nós!
A interpretação que para
o mesmo nos foi dada traduz-se na orientação, imposição ou oposição, que surge
depois de questionarmos uma entidade que gosta de exercer o poder hierárquico e
que, dessa forma, condiciona a nossa vontade de fazer algo diferente.
As ideias e a vontade de
as concretizar devem ser acolhidas e interpretadas como verdadeiras
manifestações de liberdade e, muitas vezes, quem determina, manda calar, manda
parar, porque tudo quer controlar.
A necessidade permanente
de perguntar quando se pode fazer, avançar, acabará por nos conduzir à inação. É
um mau hábito estar sempre à espera da resposta que muitas vezes tardará e outras
vezes, se surgir, vem para condicionar a vontade de realizar ou o modo de o
fazer.
Talvez não haja
necessidade de se optar entre o caminho que não existe previamente e é
construído pelo ato de andar [António Machado] e o caminho da invenção, rutura,
gesto criador contra a norma [Almada Negreiros]se se aceitar a ideia de fazer sem estar sempre à espera de autorização.