domingo, junho 28, 2026

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Ferver em pouca água

   

Junho começa no toque da luz — o ar muda, a pele sente. Anuncia o verão. As manhãs são claras, ao longo do dia o calor aperta. Mas ainda não é verão e a estabilidade não existe.

De vez em quando, há tardes em que o céu se cobre de nuvens como quem faz uma birra e uma ou outra trovoada aparece sem avisar. São, ainda, de esperar noites frescas.

Junho vive dividido — quer ser verão, mas ainda sonha primavera. É um mês que ainda está a aprender a ser verão, que só chegará na última semana.

Talvez por isso junho nos lembre a juventude.

A rebeldia juvenil é ensaio: limites testados, erros que ainda não pesam. O corpo e a mente descobrem até onde podem ir. Tal como junho, estão a crescer.

O que inquieta não é um jovem ferver em pouca água; o preocupante é um adulto continuar em ebulição como se tivesse quinze anos. A idade adulta traz consigo a expectativa de mais contenção, mais memória.

Para educar uma criança é preciso toda uma aldeia — um clima estável, um calor que aqueça sem queimar. Todo o tempo do mundo, todo o conhecimento acumulado, toda a paciência que só a vida ensina.

Quem chega à idade adulta sem ter aprendido a controlar o seu “calor interno” é alguém que não ouviu a aldeia, ou não a teve, ou não quis aprender com ela.

No sentido vulgar, ferver em pouca água é perder a calma por quase nada. Na cozinha, é arte de conter o excesso; na vida, é sinal de quem ainda não aprendeu a esperar.

Como diria Mochofino, a juventude ferve depressa porque está a aprender a controlar o lume.

Junho também, no seu lume ainda incerto.

O verão chega quando o lume estabiliza.

Universo original de Mochofino.


domingo, junho 21, 2026

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Roma e Pavia não se fizeram num dia

   

Portugal foi fustigado, num curto intervalo de tempo, por uma sucessão de depressões atlânticas que deixaram a zona centro em ruína. A tempestade Kristin foi a mais violenta: arrancou árvores pela raiz, cortou-as ao meio, destruiu estradas, derrubou postes, arrasou casas e deixou a paisagem irreconhecível. A dimensão dos prejuízos tornou evidente que a recuperação não se mede em semanas. Levará meses, anos — e, no caso da floresta, décadas.

Há dias passei pela região afetada. Muitas árvores continuam quebradas, inclinadas como testemunhas de algo que passou depressa demais. A paisagem é desoladora, marcada pelo que desapareceu e pelo que ainda não regressou.

Foi nesse momento que surgiu na memória o provérbio e a curiosidade de o revisitar. “Roma e Pavia não se fizeram num dia” fala de tempo, persistência e construção lenta. A tempestade mostra o contrário: destruição súbita, violência, fragilidade das coisas feitas pelo homem.

A tempestade derruba em minutos o que levou anos a erguer. O provérbio lembra que reconstruir leva tempo.

A máxima nasce na Idade Média francesa e dizia apenas que "Roma não se fez num dia". A versão portuguesa acrescentou Pavia, e é geralmente aceite que o fez por necessidade rítmica com a palavra dia.

Uma leitura apressada tende a diminuir a importância de Pavia perante Roma. Será verdade se pensarmos apenas em imponência, grandiosidade ou civilização antiga. Mas, cultural e historicamente, Pavia não é de desprezar: foi capital da Lombardia, centro universitário de prestígio e palco de episódios decisivos da história europeia.

A rima pode ter guiado a forma, mas não apaga o peso da cidade.

Mochofino diria que, entre a rapidez do que cai e a lentidão do que se levanta, ficamos nós — a aprender a ser pacientes, a aceitar que a obra humana é sempre mais frágil do que gostaríamos e que tudo leva tempo a fazer.

Universo original de Mochofino.

domingo, junho 14, 2026

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Junho, dorme-se sobre o punho

   

O verão aproxima-se, e o calor intenso desta Cova da Beira começa a lembrar-nos, de forma brusca, que o tempo quente está a chegar.

Há dias em que o sol não aquece: queima. E o corpo, sensato, começa a abrandar - não por preguiça, mas por instinto. 

Resolvemos procurar um provérbio que fosse capaz de traduzir um sentimento de rendição à força do calor. Ao calor que dobra a nossa vontade. Encontrámos este: “Junho, dorme se sobre o punho.”

Não procurámos mais. A imagem formou-se de imediato: alguém sentado, dobrado sobre si, a cabeça pousada no braço, a pedir ao mundo cinco minutos de tréguas. Não para pensar, para não cair.

A imagem era tão nítida que fomos procurar um quadro que a confirmasse. Encontrámos Le Réveil du Faucheur, de Léon Augustin Lhermitte: um ceifeiro exausto, apanhado no instante em que o corpo decide por ele.

Não podemos mostrar o original; Mochofino fez a sua versão e, claro, entrou no quadro — a versão com o calor da Cova da Beira, porque quem aqui vive sabe o que é dobrar‑se à força do calor.

E assim voltamos ao princípio: o verão chegará sem pedir licença e o corpo abranda. Temperaturas altas não pedem feitos; pedem sombra, pedem pausa. Não por preguiça, mas por economia de forças.

O provérbio não engana: em junho, quando o calor manda, o corpo obedece. Sesta não é luxo — é estratégia.

Obs.: Vale a pena ver o quadro original. E vale o caminho — Mochofino aprecia leitores que se mexem.

Universo original de Mochofino

 

sábado, junho 06, 2026

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Adeusinho que é mais docinho / Adeusinho, que é mais docinho

   

Há gestos pequenos que nos ensinam mais do que parecem.
Um deles é este:
- mexer o café, mesmo sem açúcar.
É simples, quase automático, mas lembra‑nos que nada deve ser deixado de lado — como a espuma que fica à tona, deixando escapar para o ar parte do aroma.
Há ideias que precisam de ser mexidas, bem mexidas!

No Dia Mundial do Ambiente, detivemo‑nos nesta observação. Tal como no café que não se mexe — e onde a espuma fica à tona - também há propostas que parecem inteligentes, mas que não passam de preguiça mental embrulhada em papel vistoso, pronta para consumo imediato.

Recordamos a velha ideia de meter uma garrafa dentro do autoclismo para poupar água. Foi apresentada como solução criativa, quase visionária. No entanto, sempre existiu o mecanismo que permite ajustar a posição de boia, diminuindo a quantidade de água usada em cada descarga.
A solução existia, discreta e eficaz, mas preferimos a garrafa: fácil de repetir, perfeita para parecer ação sem exigir pensamento crítico.

Mochofino observa como se multiplicam soluções mágicas — brilhantes à primeira vista, frágeis quando a reflexão chega.

É assim em tantas discussões ambientais: queremos energia limpa, queremos soluções rápidas, mas não paramos para perceber o que está por trás delas. 
E talvez seja esse o problema: falta‑nos uma vírgula, a pausa mínima que muda o sentido de uma frase. O momento em que se evita o impulso e se escolhe a reflexão. E isto não é novo.

Curiosamente, até os provérbios nos avisam — e vale a pena reparar neste exemplo, com duas versões:  
“Adeusinho, que é mais docinho.”
“Adeusinho que é mais docinho.”
Com vírgula, há pausa e ironia — um afastar suave, quase doce, antes que seja tarde.
Sem vírgula, tudo corre de uma vez: um adeus rápido, dito enquanto já se vira costas.
Duas formas, duas intenções — e ambas nos lembram que a diferença está sempre no gesto.
No fundo, o ambiente pede‑nos isto: menos truques, mais pensamento; menos garrafas, mais boias; menos frases feitas, mais café mexido — mesmo sem açúcar.

Universo original de Mochofino.

Autor - José Pina

Autor - José Pina
Universo original de Mochofino