Há gestos pequenos que nos ensinam mais do que parecem.
Um deles é este:
- mexer o café, mesmo sem açúcar.
É simples, quase automático, mas lembra‑nos que nada deve ser deixado de lado — como a espuma que fica à tona, deixando escapar para o ar parte do aroma.
Há ideias que precisam de ser mexidas, bem mexidas!
No Dia Mundial do Ambiente, detivemo‑nos nesta observação. Tal como no café que não se mexe — e onde a espuma fica à tona - também há propostas que parecem inteligentes, mas que não passam de preguiça mental embrulhada em papel vistoso, pronta para consumo imediato.
Recordamos a velha ideia de meter uma garrafa dentro do autoclismo para poupar água. Foi apresentada como solução criativa, quase visionária. No entanto, sempre existiu o mecanismo que permite ajustar a posição de boia, diminuindo a quantidade de água usada em cada descarga.
A solução existia, discreta e eficaz, mas preferimos a garrafa: fácil de repetir, perfeita para parecer ação sem exigir pensamento crítico.
Mochofino observa como se multiplicam soluções mágicas — brilhantes à primeira vista, frágeis quando a reflexão chega.
É assim em tantas discussões ambientais: queremos energia limpa, queremos soluções rápidas, mas não paramos para perceber o que está por trás delas.
E talvez seja esse o problema: falta‑nos uma vírgula, a pausa mínima que muda o sentido de uma frase. O momento em que se evita o impulso e se escolhe a reflexão. E isto não é novo.
Curiosamente, até os provérbios nos avisam — e vale a pena reparar neste exemplo, com duas versões:
“Adeusinho, que é mais docinho.”
“Adeusinho que é mais docinho.”
Com vírgula, há pausa e ironia — um afastar suave, quase doce, antes que seja tarde.
Sem vírgula, tudo corre de uma vez: um adeus rápido, dito enquanto já se vira costas.
Duas formas, duas intenções — e ambas nos lembram que a diferença está sempre no gesto.
No fundo, o ambiente pede‑nos isto: menos truques, mais pensamento; menos garrafas, mais boias; menos frases feitas, mais café mexido — mesmo sem açúcar.
Universo original de Mochofino.
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ambiente
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reflexão
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4 Comments
Eu já tentei com pontos de exclamação,interrogação,colcheias e semi colcheias,avé Marias e Pai nossos e duvido que uma virgula tenha o peso de um ponto final. Nem Freud nem Pessoa nem o Abade de Baçal tenham ligado a uma simples vírgula.
Reply DeleteZé Robalo
Mexer o café...que bela ideia!
Reply DeleteEstou com curiosidade para ler a próxima reflexão
Abraço.
Obrigado pelo incentivo.
Reply DeleteFreud ou Pessoa ou... mas um gonçalense está sempre atento.
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