domingo, maio 31, 2026

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Quanto mais se serve, menos se vale

 

Há momentos em que o acaso junta o que ninguém esperaria ver ligado. E, quando se olha com atenção, percebe‑se que não é assim tão raro.

A leitura do provérbio ‘Quanto mais se serve, menos se vale’ coincidiu com um episódio quase rocambolesco protagonizado por duas figuras públicas. A coincidência é, por si só, reveladora.

Sobre a utilização da base das Lajes, dizem coisas diferentes — e até contraditórias. Um garante que houve autorização sem pedido. O outro afirma que o pedido só surgiu depois da missão estar concretizada.

Esta situação caricata e preocupante fez-me recuar ao primeiro texto que publiquei no blogue —o que me levou a iniciar este caminho na tentativa de perceber o que se esconde por detrás de cada provérbio.

Recordo “Não sei qual o momento, muito menos o contexto, em que pela primeira vez ouvi: A tudo Nosso Senhor nos leva, se a saúde não nos faltar".

Mochofino, sempre atento ao que se passa, já não se espanta. Agita-se e incomoda-se com a repetição deste velho padrão humano, que tende a repetir-se. É apenas mais um capítulo da eterna história entre quem serve e quem é servido.

O episódio interessa pelo reflexo que produz e mostra, de forma crua, que quem serve demasiado acaba tratado como quem não precisa de saber. Quando alguém se habitua a servir, o outro habitua-se a não explicar.

Quem serve acredita que faz o que deve ser feito — e que isso será reconhecido. O que não espera é que quem é servido tome o gesto como natural. É precisamente aqui que o provérbio captura crueldade da realidade, dar tudo e ainda assim valer menos.

Importa perceber que é possível servir, mas sem se apagar.

Servir é nobre. Mas servir sem medida leva o outro a não medir o valor do que recebe.

Universo original de Mochofino.

sábado, maio 23, 2026

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Maio que não der trovoada, não dá coisa estimada.

   

Maio tem destas coisas: um provérbio que está longe de gerar consensos — pelo contrário, parece feito para os baralhar.

E não admira: basta uma chuvada para alguns anunciarem o fim do mundo agrícola e outros agradecerem aos céus como se tivessem recebido uma bênção rara.

Todos sabem que não é possível agradar a gregos e a troianos, não se pode ter sol na eira e chuva no nabal.

O provérbio diz: “Maio que não der trovoada, não dá coisa estimada.” Perguntem aos produtores de cereja. A resposta será: trovoada, não.

Pois é, o trigo agradece a trovoada, a cereja teme-a; onde o cereal vê promessa, o fruto vê ameaça.

O ditado nasce da observação de um Portugal cerealífero: a chuva e o calor de maio favoreciam a produção e anunciavam um ano de pão. Nessa paisagem, a trovoada era sinónimo de segurança alimentar.

Convém, porém, distinguir: trovoada sem granizo pode trazer humidade e calor úteis; granizo ou chuva intensa trazem queda de fruta e doenças fúngicas — prejuízos imediatos para pomares de alto valor, como os de cereja.

As culturas mudaram e o mapa rural alterou-se. Por isso, a leitura dos provérbios não pode ficar reduzida à citação: precisa de enquadramento histórico, económico e climático.

Entender o que o ditado popular dizia e o que já não diz, exige contextualização; perceber o que ainda pode dizer exige investigação e recolha de informação.

Manter as expressões populares é um ato de respeito pela cultura; interpretá-las com rigor é um dever intelectual. Só assim o provérbio passa a ser uma chave para compreender como mudámos e o que, do saber antigo, ainda nos serve.

Maio dá refrões, rimas e contradições. Este provérbio é um convite para ver e ler a tradição com olhos críticos. 

Universo original de Mochofino

sábado, maio 16, 2026

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Em maio, come as cerejas ao borralho

Até onde a nossa memória nos conduz, as cerejas surgem como um dos primeiros frutos de verão. 
O provérbio “Em maio come as cerejas ao borralho” revela o paradoxo entre o fruto que anuncia o verão e o frio que ainda domina o mês.

A leitura “meteorológica” faz pleno sentido: maio traz as primeiras cerejas, mas o corpo continua a pedir o calor das brasas, razão pela qual o provérbio recomenda que sejam apreciadas junto ao borralho.

O provérbio funciona como indicador fenológico e térmico — quando há cerejas o ciclo da estação avança, mas o frio de maio aconselha contenção.
O fruto chega cedo, mas o verão ainda tarda.

Embora a origem do provérbio não esteja documentada, a relação entre fruto temporão e espera prudente também a encontramos no blogue:
“…bom, bom, era mesmo esperar pela noitinha, fria a pedir fogueira e borralho, e …/… vendo o dono cansado depois de ter perdido meio-dia de espera…/… ir comer umas cerejas”.
“Era tão bom ir roubar cerejas!” [contextualize-se a afirmação!]

A sabedoria do mundo rural completa o ciclo com dois outros provérbios que marcam a progressão natural do fruto: — “Em maio as cerejas, uma a uma, leva-as o gaio” e “Em junho, a cesto e a punho.” Da escassez à abundância, da espera à colheita.
Um provérbio espanhol reforça esta lógica sazonal e fixa o momento ideal da apanha: “Por San Juan, cerezas en la mano.”
A cereja, afinal, é um relógio natural que mede a passagem da primavera para o verão.

 Universo original de Mochofino

domingo, maio 10, 2026

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Meter-se numa camisa de onze varas


Se o provérbio não fosse tão conhecido, poderia sugerir que alguém ousou vestir uma camisa de onze varas.
Se assim fosse estaríamos perante um problema de alta-costura, porque produzir uma camisa a partir de onze varas seria uma tarefa difícil e arrojada.
Mas meter-se numa camisa de onze varas não é um problema de costura. É um convite ao desastre ou à situação de dificuldade iminente.
Essa camisa, literal ou metaforicamente, junta três coisas que ninguém quer ao mesmo tempo: desconforto, exposição e responsabilidade.
Serve tanto para quem se quer expor, sentindo-se diferente, como para quem se dispõe a aceitar um negócio sem ler o contrato.
O resultado parece apontar para o mesmo:
explicações pouco convincentes, pedidos de desculpas tardios e arrependimentos públicos.
Na prática, a expressão é um aviso com uma camada de sarcasmo evidente. Quando alguém diz que outro se meteu numa camisa de onze varas, está a dizer, de forma mordaz, que a pessoa não vai por bom caminho.

Mas o que estará na origem desta expressão? 
Na expressão registada no Dicionário de Expressões Correntes, de Orlando Neves (Editorial Notícias), afirma-se que "pano de varas era um tecido grosseiro, uma espécie de saragoça.
Era dele que se faziam as vestes com que os condenados, por exemplo, no tempo da Inquisição, eram levados para o suplício.”
Na obra "Holanda", Ramalho Ortigão, refere-se ao vestuário de certas figuras, como feito com tecido “semelhante ao nosso antigo pano de varas, com altas golas de veludo até à nuca". 
Por sua vez o rei D. Manuel I obriga Luís Góis a entregar a Álvaro Fernandes, capelão do dito senhor, 23 varas de pano para 3 alvas e para panos de cálice e 11 varas de forro … e atendendo a que a vara era uma medida usada à época, onze varas seriam cerca 12,1 metros.
Conjugando estas três referências, Mochofino teria deixado o seguinte aviso:
- Se alguém lhe propõe vestir uma camisa destas, recuse com educação.
Se já a vestiu, desfile com cuidado e tente que o tropeção não seja demasiado violento.

Universo original de Mochofino

domingo, maio 03, 2026

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Mãe velha e camisa rota não desonram

 

"Mãe velha e camisa rota não desonram".


Com um dia tão especial para celebrar, não podia deixar passar o dia sem um provérbio com uma força especial.
Nem a mãe envelhecida, nem a camisa gasta pelo uso são motivo de vergonha — pelo contrário, são sinais de vida, de história, de pertença.
O provérbio revela cuidado acumulado, pertença, honra, gratidão e orgulho.

A imagem não é silenciosa pois falam as mãos.
As mãos contam a história inteira. No toque entre mãe e filho(a), o dia encontra o seu significado. Feliz Dia das Mães.

Autor - José Pina

Autor - José Pina
Universo original de Mochofino