sábado, maio 23, 2026

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Maio que não der trovoada, não dá coisa estimada.

   

Maio tem destas coisas: um provérbio que está longe de gerar consensos — pelo contrário, parece feito para os baralhar.

E não admira: basta uma chuvada para alguns anunciarem o fim do mundo agrícola e outros agradecerem aos céus como se tivessem recebido uma bênção rara.

Todos sabem que não é possível agradar a gregos e a troianos, não se pode ter sol na eira e chuva no nabal.

O provérbio diz: “Maio que não der trovoada, não dá coisa estimada.” Perguntem aos produtores de cereja. A resposta será: trovoada, não.

Pois é, o trigo agradece a trovoada, a cereja teme-a; onde o cereal vê promessa, o fruto vê ameaça.

O ditado nasce da observação de um Portugal cerealífero: a chuva e o calor de maio favoreciam a produção e anunciavam um ano de pão. Nessa paisagem, a trovoada era sinónimo de segurança alimentar.

Convém, porém, distinguir: trovoada sem granizo pode trazer humidade e calor úteis; granizo ou chuva intensa trazem queda de fruta e doenças fúngicas — prejuízos imediatos para pomares de alto valor, como os de cereja.

As culturas mudaram e o mapa rural alterou-se. Por isso, a leitura dos provérbios não pode ficar reduzida à citação: precisa de enquadramento histórico, económico e climático.

Entender o que o ditado popular dizia e o que já não diz, exige contextualização; perceber o que ainda pode dizer exige investigação e recolha de informação.

Manter as expressões populares é um ato de respeito pela cultura; interpretá-las com rigor é um dever intelectual. Só assim o provérbio passa a ser uma chave para compreender como mudámos e o que, do saber antigo, ainda nos serve.

Maio dá refrões, rimas e contradições. Este provérbio é um convite para ver e ler a tradição com olhos críticos. 

Universo original de Mochofino

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Autor - José Pina

Autor - José Pina
Universo original de Mochofino