E não admira: basta uma chuvada para alguns anunciarem o fim do mundo agrícola e outros agradecerem aos céus como se tivessem recebido uma bênção rara.
Todos sabem que não é possível agradar a gregos e a troianos, não se pode ter sol na eira e chuva no nabal.
O provérbio diz: “Maio que não der trovoada, não dá coisa estimada.” Perguntem aos produtores de cereja. A resposta será: trovoada, não.
Pois é, o trigo agradece a trovoada, a cereja teme-a; onde o cereal vê promessa, o fruto vê ameaça.
O ditado nasce da observação de um Portugal cerealífero: a chuva e o calor de maio favoreciam a produção e anunciavam um ano de pão. Nessa paisagem, a trovoada era sinónimo de segurança alimentar.
Convém, porém, distinguir: trovoada sem granizo pode trazer humidade e calor úteis; granizo ou chuva intensa trazem queda de fruta e doenças fúngicas — prejuízos imediatos para pomares de alto valor, como os de cereja.
As culturas mudaram e o mapa rural alterou-se. Por isso, a leitura dos provérbios não pode ficar reduzida à citação: precisa de enquadramento histórico, económico e climático.
Entender o que o ditado popular dizia e o que já não diz, exige contextualização; perceber o que ainda pode dizer exige investigação e recolha de informação.
Manter as expressões populares é um ato de respeito pela cultura; interpretá-las com rigor é um dever intelectual. Só assim o provérbio passa a ser uma chave para compreender como mudámos e o que, do saber antigo, ainda nos serve.
Maio dá refrões, rimas e contradições. Este provérbio é um convite para ver e ler a tradição com olhos críticos.
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