Até onde a nossa memória nos conduz, as cerejas surgem como um dos primeiros frutos de verão.
O provérbio “Em maio come as cerejas ao borralho” revela o paradoxo entre o fruto que anuncia o verão e o frio que ainda domina o mês.
A leitura “meteorológica” faz pleno sentido: maio traz as primeiras cerejas, mas o corpo continua a pedir o calor das brasas, razão pela qual o provérbio recomenda que sejam apreciadas junto ao borralho.
O provérbio funciona como indicador fenológico e térmico — quando há cerejas o ciclo da estação avança, mas o frio de maio aconselha contenção.
O fruto chega cedo, mas o verão ainda tarda.
Embora a origem do provérbio não esteja documentada, a relação entre fruto temporão e espera prudente também a encontramos no blogue:
“…bom, bom, era mesmo esperar pela noitinha, fria a pedir fogueira e borralho, e …/… vendo o dono cansado depois de ter perdido meio-dia de espera…/… ir comer umas cerejas”.
“Era tão bom ir roubar cerejas!” [contextualize-se a afirmação!]
A sabedoria do mundo rural completa o ciclo com dois outros provérbios que marcam a progressão natural do fruto: — “Em maio as cerejas, uma a uma, leva-as o gaio” e “Em junho, a cesto e a punho.” Da escassez à abundância, da espera à colheita.
Um provérbio espanhol reforça esta lógica sazonal e fixa o momento ideal da apanha: “Por San Juan, cerezas en la mano.”
A cereja, afinal, é um relógio natural que mede a passagem da primavera para o verão.
Universo original de Mochofino
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