O calendário diz-nos que vivemos no tempo da Quaresma e, no Fundão, regista-se um dos momentos mais fortes do calendário religioso.
As manifestações religiosas vão acontecendo e tudo se intensifica: procissão do Senhor da Cana Verde, enterro do Senhor, visitação das capelas, Via Sacra…e esta circunstância levou-nos até ao provérbio “Lavar as mãos como Pilatos”.
Esta expressão tornou-se muito comum e interpretada como sinónimo de fuga moral: o gesto de quem se demite da responsabilidade, mesmo perante a evidência da verdade.
Abluir significa lavar, limpar ou purificar com água e é usado em contextos litúrgicos. O ato de abluir significa lavar com intenção ritual, é um gesto simbólico, com valor espiritual.
Não deixa, pois, de ser curioso, que no intervalo de dois dias este ritual aconteça com significados bem distintos: na Quinta-feira Santa Jesus Cristo inclina-se para lavar os pés dos seus discípulos e Pôncio Pilatos lava as suas mãos na Sexta-feira Santa.
No primeiro caso o gesto revela uma ablução verdadeira: purificação que nasce do serviço, da entrega, da humildade; já o segundo surge como uma ablução inversa. Lavar as mãos para parecer purificado, qual cena performativa, não espiritual.
A ablução tradicional é um gesto de responsabilidade moral, Pilatos transforma-a num gesto de evasão moral.
Com esta ação a Igreja Católica identifica esta personalidade como a autoridade que permitiu a condenação de Jesus Cristo e mantém no Credo — “Jesus padeceu sob Pôncio Pilatos”.
Já a tradição ortodoxa, por exemplo na Etiópia, ousou vê-lo de outra forma: um homem que, arrependido, teria encontrado redenção, passando a ser venerado como mártir. Entre culpado e santificado, na tradição cristã não há unanimidade.
O Evangelho de Mateus não menciona o nome da esposa de Pilatos, mas a tradição, incluindo textos apócrifos como o Evangelho de Nicodemos, identifica-a como Cláudia Prócula. É ela quem, perturbada por um sonho, lhe envia a mensagem: “Não te envolvas com esse justo.”
A advertência abre uma fissura na narrativa: Pilatos não é apenas símbolo de fuga; é também o homem dividido, tocado por uma verdade que o ultrapassa.
E é precisamente no gesto da água — esse espelho silencioso que revela mais do que lava — que tudo converge.
A água não mente, diz sempre quem és.
Universo original de Mochofino
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2 Comments
Limpar as mãos, infelizmente, é o que a maioria faz por cobardia de assumir o caráter.
Reply DeleteUm feliz Dia de Ramos. Abraço.
Ainda que de fora de tempo, obrigado.
Reply DeleteO comentário está acessível